domingo, 14 de julho de 2019

|::| Dos porquês ocultos

Esse é um texto sem muito sentido que saiu como desabafo para mim mesmo. Resolvi compartilhar porque, afinal de contas, todo ser humano é, essencialmente, uma figura pública...

Há quase vinte anos comecei a ganhar consciência de um movimento interior que me puxava para uma direção diferente daquela imaginada desde cedo. Meus interesses "naturais", que outrora se resumiam a jogos eletrônicos, astronomia, biologia e números, expandiam-se a novas fronteiras – as tais ciências humanas. Na idade em que só parecia existir uma pergunta – que curso você fará na faculdade? – bruscamente migrei da dúvida entre alguma das engenharias, estatística ou ciências biológicas, para filosofia, psicologia ou ciências sociais. Aos dezoito anos – exatos dezoito anos atrás – finalmente decidi seguir na direção das Ciências Sociais.

Naquela mesma época, outra novidade: a escrita. Ao mesmo tempo em que eu descobria o prazer de aprender sozinho a construir páginas na relativamente jovem Internet, eu escrevia meus primeiros textos. De lá para cá, perdi as contas de quantos pequenos textos e contos, e de quantas crônicas e páginas para hospedá-las eu criei. Textos que sempre variaram entre aquilo que surge da minha surpresa com o mundo e aquilo que surge da minha surpresa com a pessoa que fui me tornando.

Não sei dizer se os anos me fizeram bem ou se me fizeram mal, mas certamente eles me fizeram – e eu fiz com eles – uma penca de coisas. E foram tantas as transformações, que a inocente presunção de que chegaria um momento da vida em que eu poderia dizer "esse sou eu" foi parecendo cada vez mais uma das maiores idiotices que já passaram pela minha mente. Cada dia que passa eu me sinto mais longe de conseguir dizer o que, ou quem, eu sou. E, obviamente, não sou o único a experimentar essa perceção de se tornar mais esquisito ao seu próprio entendimento à medida em que mais se conhece diferentes aspectos de si. 

Nesses anos eu me engajei em várias diferentes visões de mundo que, de alguma forma, momentaneamente, trouxeram alguma sensação de coerência. Porém, nenhuma resistiu à passagem do tempo. Nenhuma sobreviveu à minha passagem pelo tempo. E, junto com elas, também se esvaiu minha vontade de dizer qualquer coisa. Não é de agora que me sinto sem vontade de dizer o que penso, ou de comentar o que acontece aqui dentro ou lá fora. 

O mundo está um lugar bem estranho. Possivelmente sempre tenha sido e eu é que fui descobrindo aos poucos. Eu estou algo bem estranho. Gostaria de dizer muita coisa, mas tudo me parece pouco relevante. E tanta gente me parece estar muito pouco interessada em ouvir algo que não seja seu próprio amontoado de bobagens.

É, parece que estamos afogados nas nossas próprias bobagens. E eu gostaria de dizer algo a respeito. Eu gostaria de fazer algo a respeito da falta de espaço para aquelas conversas que geram reflexões.

Talvez, de todas as tantas visões de mundo, ainda guardo aquela que enxerga algum valor na reflexão. Talvez eu ainda faça algo a respeito, movido por algum porquê oculto. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

|::| Das sociabilidades

Tiro os fones de ouvido para entender o que ele está falando.

- Você assistiu ao clássico de ontem? – ele repete olhando para mim pelo retrovisor.

Como se já não bastasse estar interrompendo meu momento de solidão voluntária, ele ainda se atreve a me perguntar algo de que não entendo.

- Clássico?

- O jogo. Para que time você torce?

Ah, certo. Ele está falando de futebol, que obviamente é o primeiro assunto que você deseja discutir numa segunda cedo indo para o trabalho.

- Corinthians – respondo, consciente de que eu posso ter acabado de colocar a minha vida em risco. Observo a expressão nos olhos dele e respiro aliviado. Talvez ele seja corintiano também. – Não assisti ao clássico ontem, não – completo, voltando a colocar os fones de ouvido e olhando para o celular, tentando encerrar o assunto.

Tiro os fones de ouvido novamente.

- Sou vascaíno. Meu pai é do Maranhão e a minha mãe de Brasília.

- Ah, legal – respondo, percebendo que não vou me livrar tão fácil dessa interação social inesperada.

- Já fui várias vezes para o Rio assistir a jogos do Vasco, mas nunca passeei por lá. Eu não gosto daquele lugar, as pessoas são estranhas.

Fico em silêncio, evitando dar corda a uma conversa que continua não fazendo sentido. Estranhas são as pessoas que deliberadamente puxam assunto com pessoas estranhas numa segunda pela manhã. Estranhas são as pessoas que apoiam o Bolsonaro justificando que ele é um exemplo de político cristão. Estranhas são as pessoas que não gostam de azeitona. Estranhas são as pessoas que preferem qualquer super-herói ao Superman.

- Uma das vezes que fui até lá – ele continuou, para meu desespero – entrei numa padaria que parecia bacana, pedi um café e, depois de esperar por mais de trinta minutos, decidi reclamar. Você acredita que o garçom disse que apressado assim eu só podia ser de São Paulo mesmo?

- Hum.

- Sim, e a vez em que fui para o Rio assistir a um jogo sem comprar ingressos antes? Tive que me desdobrar para conseguir entrar naquele estádio.

Enquanto ele conta uma história interminável sobre como fraudou o sistema para entrar no estádio, eu penso seriamente em voltar a acreditar num deus estilo Velho Testamento apenas para ter a esperança de um novo dilúvio. Se bem que um apocalipse zumbi seria bem melhor. Inclusive não entendo qual terá sido o sentido da minha existência se eu morrer sem ter presenciado o apocalipse zumbi. 

Esqueço que ele está falando comigo e coloco os fones novamente.

Tiro os fones de ouvido.

- Você já foi para a Argentina? Lá, sim, é um lugar organizado. Sabe por quê?

Decido ouvir o que virá a seguir. Porém, antes que ele continue, nós chegamos ao destino. Eu me despeço cordialmente e saio me dando conta de que talvez nunca descubra o porquê de a Argentina ser um lugar organizado para aquele estranho que me levou ao trabalho. 

Coloco os fones de ouvido novamente.

domingo, 4 de março de 2018

|::| Dos retornos

Faltando poucas semanas para eu completar meu quinto setênio vestindo este amontoado de pele - que realmente insiste em se amontoar formando aquilo que chamamos de rugas - ouvi o vento falando comigo, pedindo para eu voltar a escrever. 

(Certo, o vento não fala, mas a gente escuta mesmo assim).

Fato é que decidi retornar à vida de blogayra fitness digital influencer. Se bem que em dezembro de 2000, quando criei meu primeiro sítio na internet para depositar meus textos, esse termos nem existiam, então eu fui apenas o carinha meio nerd, meio merda, que escrevia umas coisinhas e gentilmente, com imenso altruísmo, disponibilizava para todo mundo ler, embora soubesse que apenas sua mãe realmente leria, enquanto alguns poucos amigos diriam que sim.

Após tantos anos, e várias dezenas de textos e postagens, talvez seja o momento de voltar de forma mais organizada e disciplinada, afinal, ter um melhor amigo de Virgem por tantos anos deve ter servido para alguma outra coisa também.

(Na verdade, se alguém realmente leu o blog inteiro sabe que este não é o primeiro "retorno").

Então, keep calm and I am back bitches!




sábado, 31 de dezembro de 2016

|::| Das mudanças

Faz um pouco mais de um ano que não posto nada no meu blog (sim, eu ainda tenho um). Talvez seja sintoma de algo. Talvez a consequência do ano tão fora do comum que está chegando ao fim. 

Relendo meu último texto eu percebi que, apesar de tudo, tenho muito pouco a acrescentar ao que eu escrevi um ano atrás (texto aqui). Continuo experimentando uma intensa transformação que, pelo jeito, tem a ver com a descoberta de que todo o amontoado de coisas que eu sou é, na verdade, muito pouco. E isso, de alguma forma, faz tudo ser bastante interessante.

Tenho a sensação de que o acúmulo de experiências pelo qual passo ao longo dos dias se desdobra inevitavelmente num exercício constante de abandono, uma espécie de "descascar a si mesmo". E faz parte desse processo reconhecer o valor de tudo o que passa pela minha vida.

Nunca senti a mudança acontecer de forma tão intensa e profunda como nesse ano. Agradeço fortemente a todos os que estiveram comigo em algum momento. Reconheço que fui especialmente mais difícil nos últimos 12 meses.

Do ano que termina eu carrego o sincero reconhecimento de que há coisas pelas quais eu posso apenas me limitar a dizer "sinto muito", sabendo que dentro de cada pessoa (dentro de mim, inclusive) existe a potencialidade de realizar sonhos e também pesadelos. Mas também carrego a crença de que todas as coisas, sonhos e pesadelos, mais cedo ou mais tarde, misturam-se enquanto experiências que nos levam adiante.

Ao ano que está chegando eu faço um convite para uma bela dança ao redor do sol comigo. Será MARAVILHOSO.

;)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

|::| Das transcendências

Acabo de entrar oficialmente em férias. Este foi, certamente, o ano de trabalho mais intenso da minha vida até hoje e o meu desafio agora é desacelerar, desconectar e me reconectar a outras possibilidades de vida. Fiz uma boa escolha de onde passar meus primeiros dias de férias. Aqui, afastado de tudo, acima das nuvens, sentindo o silêncio. Quando as nuvens passam, dá pra ver 3 cidades lá longe e, daqui, tudo realmente parece muito pequeno.


Esse exercício de afastamento e o efeito que isso provoca na nossa mente (e no nosso corpo) talvez seja uma das tantas transcendências possíveis. E transcender, pelo menos para mim, não é fácil. Exige um certo desprendimento. Exige desapego, pois sempre significa a transposição de alguma coisa que parecia fazer parte de você. Significa, talvez, uma transposição de si mesmo, um abandono de algo que parecia emoldurar seu corpo, como sua pele, mas que agora você vê que era apenas uma das muitas e variadas cascas com que vamos nos cobrindo ao longo das nossas experiências. E manter-se consciente desse processo e da realidade de que isso tudo vai acontecer inúmeras vezes traz alguma serenidade a respeito do futuro. E também uma certa conexão com o fluxo que faz da morte e da vida apenas dois momentos diferentes de como o universo é experimentado.

Boas férias para mim. Obrigado.

Ah, e vale uma propaganda aqui de onde estou... Estou na Pousada Rural, em Ipuiúna - MG. Recomendo bastante para quem quer descansar. É a segunda vez que venho para cá.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

|::| Dos princípios que nunca são o começo

Cerca de 15 anos atrás eu estava descobrindo que escrever poderia ser algo interessante para mim. Após participar de um dos grupos vencedores de um prêmio nacional de literatura, de certa forma a vontade de escrever havia se instalado em mim. Foi quando criei meu primeiro "blog". Eu desconfio que naquela época o nome para esse tipo de coisa nem era esse. Mas eu fazia tudo o que conseguia através de uma plataforma gratuita de criação de páginas pessoais para entregar a melhor experiência possível aos poucos e muito desejados internautas que vez ou outra apareciam no meu humilde site. 

E de lá para cá metade da minha vida passou e sinto como se tivesse cada vez menos a dizer. E já nem é tão novidade aqui o quanto essa percepção tem crescido em mim ao longo dos últimos tempos. Acreditem, a vontade de escrever continua firme, mas a crença de que realmente haja algo a ser dito através do que eu escrevo é que se enfraqueceu. Sei que a minha mãe vai discordar (no cumprimento do seu papel tradicional de mãe ela costuma achar incrível qualquer coisa que eu diga), mas desconfio que tudo o que eu venha a escrever seja completamente dispensável. Ah, e sem contar que durante esses anos todos eu tenha me perdido nas revisões das nossas normas gramaticais e soe a quem tá chegando agora como outros soavam a mim quando eu topava com uma "pharmacia". Sim, reconheço que além de dispensável eu também esteja ficando cada vai mais ultrapassado. Mas confesso que isso me desperta uma certa admiração pelo tempo e pelos efeitos da sua passagem.

Novamente me vejo frente à constatação de que o tempo nos leva a reler constantemente as nossas experiências, dando a elas sentidos e interpretações inesperadas. Somos, talvez, uma incessante releitura de nós mesmos e tudo aquilo que experimentamos. Somos, de certa forma, uma invenção diária de algo que já existe, algo que é sempre novo embora nunca seja o início de algo. A novidade que eu sou agora é o fim da novidade que eu era imediatamente antes. Talvez porque cada pequena nova experiência que integramos à nossa consciência tenha o potencial de bagunçar e reordenar o pacote completo daquilo que chamamos de "eu". E a cada pequena reordenação vamos nos tornando, geralmente sem perceber, uma enorme novidade. 

Acho que há uma certa graça (ou beleza, se preferirem) nisso tudo. Esse negócio misterioso que é a vida vai se movimentando no tempo, criando seus espaços, ampliando suas possibilidades, destruindo e construindo, matando e fazendo nascer, levando-nos a desconfiar de que talvez o sentido de tudo seja o movimento. E sofremos quando tentamos barrar ou não aceitamos esse movimento, quando nos apegamos a qualquer coisa que não seja o próprio movimento.

Mas daí já tá ficando tarde e o sono está ficando grande demais para continuar divagando sobre o sentido da vida...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

|::| Daquilo que não somos

Há poucos dias do encerramento de mais um ano – essa nossa invenção para empacotar as nossas experiências – tento colocar alguma ordem nos pensamentos que estão povoando a minha mente nos últimos dias. Tenho sentido uma vontade forte de reformular algumas crenças que já me definiram em anos anteriores. Uma delas é a de que a passagem do tempo estaria me conduzindo a ser aquilo que sou, como se meu ego estivesse sendo refinado, ou talvez transmutado em algo que já era em essência. Mas estou chegando ao fim deste ano com a sensação de que o tempo tem me levado a outra direção. Ou, talvez, a uma percepção mais clara do que seja essa tal "essência". 

Geralmente, quando eu pensava sobre a "essência", eu estava tentando compreender aquilo que é mais nuclear, individual e único. Acho interessante que eu esteja me sentindo cada vez mais distante dessa compreensão. O que me parece é que quanto mais tento me aproximar dessa essência mais me aproximo da percepção de uma ampla e poderosa conexão entre tudo o que existe. Vejo cada vez menos aquilo o que sou e mais aquilo o que os outros são em mim. Sendo assim, hoje eu definiria a minha individualidade como uma configuração aparentemente única de um amontado de contribuições que chegam a mim ininterruptamente. 

A percepção de que sou muito pouco (talvez nada) "eu" e muito "outros" é bastante impactante. Sou levado a ver que nenhuma conquista e nenhum mérito são realmente meus. E se sou um amontoado das contribuições dos outros, sou também inevitavelmente um amontoado de gratidões. Tenho, talvez, alguma responsabilidade em como configuro os outros em minha manifestação, mas não sei dizer com certeza se até mesmo essa configuração é feita por mim ou através de mim. 

Nesse fim de ano, o que eu tenho a dizer é que sou muito pouco eu e que estou em paz reconhecendo isso. Eu me sinto feliz em dizer que sou muito grato por tudo e por todos que se acumulam em mim, tornando a minha experiência tão imprevisível e multifacetada. 

E, por isso, e por tanto, eu posso resumir o que sinto desejo de dizer nesse fim de ano a um "muito obrigado".

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

|::| Dos Tempos e Ventos

"Uma vergonha, seu último post no blog foi 1 ano e 1 mês atrás", disse minha amiga Elen Abe, via whatsapp, hoje, no fim da tarde. E com bastante convicção e sinceridade, só consegui responder que "pois é, tô sem vontade de escrever, acho tudo bobagem e sinto que qualquer coisa que eu diga sempre será uma bobagem desnecessária". Mais algumas mensagens foram trocadas antes que eu decidisse que era válido repetir isso aqui. Acho que a pessoa que eu tenho me tornado com a passagem do tempo encontra cada vez menos valor em qualquer coisa que eu possa vir a escrever. Sentimento esse que já tinha passado rapidamente por mim no passado, mas que de um ano para cá chegou como aquela visita não convidada que antes mesmo de um "oi", entra em sua casa com um par de malas e pede um teto por tempo indeterminado.

Falo por mim. O tempo relativiza o discurso, o pensamento, a voz. O tempo faz erodir as nossas mais firmes opiniões e torna transparentes as cores fortes das convicções que uma vez já deram rótulo à nossa existência. A experiência traz uma percepção de que o aprendizado é sempre um desaprender. O desenvolvimento é um "des-envolver-se" de algo. E as construções às quais dedicamos tanto do nosso tempo vão se revelando feitas de ar e, como ar, são apenas percebidas em seu movimento, em sua passagem por nós. 

Talvez a saída para a minha resistência a escrever seja aceitar que meus textos sejam apenas as janelas que, quando abertas, permitem a passagem do vento. Quem sabe este seja um recomeço a partir de um outro patamar de auto-desconstrução.

(Ah, e acabei de lembrar que nesse período criei o "Miojo Filosófico", para dar vazão às pequenas desconstruções do cotidiano, então até que não fiquei tanto tempo sem escrever).

domingo, 29 de setembro de 2013

|::| De Segundas e Sextas

Lá onde passo um terço dos meus dias, reservamos a semana passada para algumas atividades geradoras de reflexão sobre "carreira", entendida não apenas em seus impactos sobre a dimensão do trabalho, mas em toda sua extensão e relação com nossa vida. Num dos momentos mais marcantes da semana, tivemos o privilégio de conversar com o Maurício Curi, criador da Educartis (http://www.educartis.com/). O papo girou em torno do desafio de se fazer coisas "de propósito", e não "sem querer". Fiquei aqui pensando nas escolhas que fiz sobre como conduzir a minha vida e nada melhor do que um domingo à noite para escrever sobre isso e ordenar as idéias antes de mais um ciclo semanal de atividades.

Nos últimos anos tenho entendido a minha vida como o desenrolar de uma série de escolhas que faço diante de minhas experiências. Uma escolha que considero determinante é como abordar as experiências que são desagradáveis e sobre as quais não tenho controle. Tenho experimentado frutos interessantes do exercício constante de fazer algumas perguntas como: 
  • Considerando que isso já aconteceu, o que decido fazer a partir de agora?
  • Tenho controle sobre isso ou o controle que tenho é uma ilusão? 
  • E o que acontece se eu aceitar que não tenho controle?

Bom, pelo que vejo, a luta por controle está presente em muitas das minhas experiências. Vejo que em muitas delas, o que tenho é apenas uma ilusão. Acho que controlo a vida dos outros, seus sentimentos e suas escolhas. E o resultado é tornar-me um colecionador de decepções e ansiedades. O risco é viver uma tristeza em pequenas doses. Viver esperanças tristes. Esperar a sexta-feira com ansiedade e temer a chegada das segundas. 

Mas se a passagem do tempo escapa completamente ao meu controle, o que é que posso fazer para acabar com esse ciclo de ansiedades? O que significa esperar com ansiedade as sextas-feiras e olhar com tristeza a aproximação das segundas? Pensando mais sobre isso, percebo a insanidade a que nos sujeitamos: viver 70% dos nossos dias fazendo algo que não gostamos de fazer. Talvez seja o caso de parar para pensar no que significa querer uma vida feita apenas de fins de semana. Do que são feitos os nossos outros dias? 

Essas são perguntas sobre as quais eu apenas engatinho, descobrindo aos poucos que viver plenamente os meus dias talvez seja fruto da escolha de fazer algo de interessante com aquilo sobre o que não tenho controle. E acho que estou num bom caminho, pois pensando bem, é incrível saber que amanhã eu começo mais um ciclo!

Esta será, realmente, mais uma ótima semana!

sábado, 31 de agosto de 2013

|::| Dos encontros

Fazia tanto tempo que eu não postava nada por aqui que talvez seja bom eu me apresentar novamente. Oi, meu nome é Kelson, tenho 30 anos, moro em São Paulo e de vez em quando a minha vontade de dizer algo se transforma em algum textinho que publico por aqui. 

Nos últimos quatro anos tenho tido o prazer de trabalhar com pessoas que valorizam boas reflexões e que não tem medo de alguns bons questionamentos. Alguns meses atrás passamos algum tempo com um filósofo, conversando sobre bons encontros, com boas doses de Spinoza e algumas pitadas de Nietzsche. Eu confesso que a conversa rendeu algumas bagunçadas na mente. E nada como bagunçar os pensamentos para encontrar novos sentidos, achar idéias que estavam perdidas e reorganizar as coisas.

Fiquei responsável por registrar aquela atividade de alguma forma e para tanto decidi escrever um texto que poderia ser transformado num pequeno vídeo. E tendo a sorte de ser amigo da artista Elen Gruber (para conhecer o trabalho dela: http://www.elengruber.com.br/), e não havendo pessoa melhor no mundo para concretizar essa ideia, escrevi o texto já pensando nela. O resultado não poderia ser melhor. Ontem ela me retornou o texto na forma de um vídeo lindo e perturbador. E aproveito então para postá-lo aqui, junto com o texto. Enjoy!





Dos encontros.

O que é mais útil ao ser humano do que outro ser humano?

Na sucessão de encontros que é a minha vida, eu me vejo intensa, eterna. Não imortal, mas eterna neste agora. Este agora que me surpreende. Este agora que me desafia, que me convida a decifra-lo. Este agora que me escapa. Que me escapa.... escapa e retorna à mente como inspiração, como sonho.

Hoje estou me sentindo eu. Mas tem dia em que é um esforço ser eu. É tanta ilusão rolando lá fora... tem horas em que me constranjo e sou pouco corajosa. Falta coragem pra viver a vida, embora enquanto viva, seja impossível não vive-la. Num dia sou escrava, no outro sou tirana. Escrava de mim. Escrava dos outros. De vez em quando escolho, sem esforço, acreditar nos sacerdotes e receber seus tantos analgésicos. Pensa que é fácil perceber que não sou o centro do universo? Que não sou o centro da espécie? Que não sou o centro da história? Que não sou o centro nem de mim mesma? Eu não sou o centro nem de mim mesma... Eu sou órfã de sentidos pré-definidos. Órfã de Bem e de Mal. Descobri que sou filha da diferença. Filha do bom, filha do mau. Filha de muitos encontros.

Eu quero ser digna daquilo que me acontece. Sem culpas, sem arrependimentos, sem medos, sem esperanças tristes, sem ressentimentos. Apenas digna por aceitar que a liberdade que eu queria era ilusão e dessa ilusão eu me fiz livre. Eu quero afirmar o que me acontece, ressignificar a minha história e vincular a minha vida no presente. Quero ser livre da tirania da alegria. Quero ser livre das certezas que me enlouquecem. Quero renascer no bom uso das dores. Quero tornar-me aquilo que sou.

Entre bons e maus encontros, hoje eu me encontrei comigo e perguntei: “quais são os valores dos meus valores?”. E esse foi um bom encontro.

Kelson Fernandes
Produzido a partir de um bom encontro.


sexta-feira, 2 de março de 2012

|::| Do corte de cabelo

E então eu estava lá, cortando o meu cabelo. Ou melhor, eu estava lá no Soho da Vila Mariana, observando, pelo espelho, o Abel cortando (muito bem, aliás) o meu cabelo (momento merchandising). Percebi algo que mudou a minha vida. Ou, pelo menos, mudou a minha vida no dia de hoje. Vi que meus fios de cabelo pretos estão desaparecendo numa velocidade bem maior do que os fios brancos estão surgindo. Isso quer dizer que talvez eu não fique um grisalho charmoso como o meu pai Gumercindo, pois provavelmente eu serei careca.

Entendem o impacto disso? O tempo está passando. Inevitavelmente a percepção do envelhecimento chega. E às vezes ela chega com força. Recentemente tive até que alterar a descrição do meu blog... Antes era algo como "um cientista social baboseiro de seus vinte e poucos anos em busca das perguntas para as grandes respostas da humanidade". Alterei para "vinte e muitos". E daqui a poucas semanas estarei a um ano de ingressar na casa dos trinta.

Não sei como será daqui para lá. Se terei crises, se quererei implantar cabelos, fazer lipos e aplicar botox, ou comprar carros esportivos que me deem a sensação de que sou um jovenzinho à procura de adrenalina. Realmente não sei. O que sei é que até aqui eu tenho procurado manter uma perspectiva positiva das coisas... E acho até que não tem sido muito difícil. Há coisas que realmente melhoram com o tempo. Posso até citar algumas. Por exemplo, lembram dos vestibulares? Então, já foram. Lembram da expectativa sobre o primeiro trabalho? Já passou. Lembram daquele yakisoba gorduroso de rua preparado com higiene duvidosa e do bandejão da universidade? Passaram. Com o tempo podemos até nos dar ao luxo de gastar mais de 2 reais por refeição. Isso é incrível, certo?

Realmente, o tempo mostra que muita coisa pode piorar e depois melhorar, e piorar de novo, e melhorar muito. Todos esses altos e baixos podem trazer um pouco de segurança. Segurança de que de vez em quando uma coisa ou outra pode fazer sentido. Nesses momentos a gente sente que está no caminho certo. A gente sente que apesar de tanta porcaria por aí, existe espaço para a construção de relacionamentos saudáveis, para ações que geram o nosso crescimento e consequentemente o crescimento dos grupos em que nos inserimos. Vale a pena procurar ser aquilo que esperamos que os outros sejam. Isso é bom, afinal, até onde vejo, poucas coisas trazem tanta satisfação quanto a visão de que por meio da nossa ação podemos deixar as coisas um pouco melhores do que estavam quando chegamos aqui.

Enfim, esse foi o primeiro post do ano. Eu sei que ele demorou para chegar, mas finalmente chegou. E estou muito feliz por isso. Muito feliz. Mesmo.

Feliz 2012!



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

|::| Sobre a morte

Passamos a vida fazendo uma espécie de coleção de dúvidas e incertezas. Sabemos muito pouco sobre quem somos, sobre o que queremos e para onde queremos nos dirigir ao longo dos anos. Temos dificuldades para fazer escolhas, até as mais simples, como com que roupas sairemos vestidos de casa. Enquanto isso, existe uma certeza, possivelmente a única, que a maioria de nós esconde nos extratos mais profundos da mente: a morte.

É certo que teremos todos que lidar com a morte. É a certeza mais sólida que possuímos. Com exceção de alguns que talvez sejam abduzidos e outros que alcançarão a iluminação e transcenderão a realidade física, todos morrerão. E, embora cada diferente crença e esperança a respeito da morte produza comportamentos únicos diante dela, nem por isso ela deixa de ser uma certeza. Não importa se apenas um sono, ou um descanso, ou uma passagem. Não importa se ela é um ponto final ou uma vírgula. A morte é, inevitavelmente, a morte. E com ela todos lidaremos. Por ela todos passaremos.

Cada sociedade encontrou suas formas de lidar com o fim. Seja com crenças específicas ou seja com rituais dos mais variados, todos aprendem um conjunto de atitudes diante da morte. Mas nem por isso aprendemos a lidar com ela. Aparentemente, por trás de todos os rituais que a cercam, existe uma grande lacuna em termos de compreensão do impacto que poderia ter sobre a nossa vida.

Nesse intervalo entre o nascimento e a morte, cada um encontra um caminho único que leva de um ponto a outro. E, a respeito da morte, a verdade de que a reta é o caminho mais curto entre dois pontos é completamente descartada, afinal, queremos adiar ao máximo esse momento, e para isso, tentamos dar voltas e voltas, fingindo que realmente acreditamos que podemos adiar indefinidamente a morte. Não podemos. A realidade é que por mais que possamos agir de forma a diminuir a probabilidade de uma morte inesperada através de comportamentos e hábitos de vida mais seguros, a qualquer momento, em qualquer situação, estamos inevitavelmente expostos à possibilidade do fim.

No caminho que percorremos entre esses dois pontos, entre o nascimento e a morte, procuramos agir de forma a satisfazer as nossas vontades que, numa quantidade extraordinária de vezes, são completamente contraditórias com a inevitabilidade da morte. Qual o sentido de tudo isto se no final todos teremos o mesmo fim? Diante desse questionamento, há tantas respostas possíveis quanto há mentes diferentes. Entretanto, acredito que a maioria de nós chegará à percepção de que é necessário fazer valer a pena. Esse valer a pena pode ser criar algo, ou construir algo, deixar uma marca, deixar um legado, fazer história, criar valor, gerar prosperidade, gerar abundância, aumentar o conhecimento, diminuir a ignorância, e assim por diante. Cada ser humano pode encontrar, dentro de si, uma espécie de chamado, que se relaciona com seus valores mais fundamentais, para agir no sentido de fazer valer a pena.

Eu imagino como tudo isto pode ser se todos, e não apenas alguns, assumirem um compromisso com esse chamado interior. Mais pessoas estariam agindo para acabar com a fome. Muitos mais estariam comprometidos com o fim do preconceito e da violência. Muitos estariam trabalhando mais intensamente na busca pela cura de nossas doenças. Haveria um mundo onde cada um estaria sinceramente agindo em prol daquelas causas que sente como suas. O resultado da construção sólida de um ambiente mais justo, mais equilibrado, mais pacífico, seria a possibilidade de cada um de nós agir na realização daquilo que sente como o necessário para fazer com que seu trajeto entre o nascimento e a morte valha a pena.

sábado, 1 de outubro de 2011

|::| Das aleatoriedades significativas

Vamos vivendo os nossos dias, seguindo rotinas e realizando as atividades que escolhemos realizar e esquecemos como muito do que queremos controlar escapa completamente à nossa decisão consciente. Há vezes em que um passo a mais ou a menos, um minuto antes ou depois, para um lado ou para outro, muda muita coisa. Esse processo acontece a todo momento, pois a todo instante estamos escolhendo, vivendo, andando de um lado para o outro, encontrando e conhecendo pessoas. Mas, nem por isso nossa atenção é chamada para esse processo, pois na maioria das vezes, sentimos muito pouco que estamos presenciando algo com poder de influenciar ou até mudar radicalmente os caminhos em que estávamos andando. Entretanto, existe uma minoria de acontecimentos que carregam em si algum conteúdo especial inexplicável a que, não por acaso, damos o nome de “acaso”. Jogamos a responsabilidade de encontros inesperados e acontecimentos imprevistos ao acaso. Alguns até diriam que esses acasos na verdade são fruto da ação de forças invisíveis superiores. Quem sou eu pra confirmar ou duvidar?


Desconfio que o acaso seja um tanto brincalhão, e gosta de nos colocar à prova, de nos desafiar e de nos levar a repensar tudo aquilo que temos como totalmente certo em nossa vida. Ele faz ironias, prega peças e se diverte com as nossas confusões. Ele se diverte vendo que somos, no fim das contas, sempre muito frágeis, muito pouco decididos e muito pouco estáveis. Estamos sempre mudando, a cada passo que damos. Sempre alterando nossa rota, nossas escolhas, pouco a pouco, de forma quase imperceptível. E, freqüentemente, quase não enxergamos quando estamos rumando a possibilidades completamente inusitadas.


Sinto como se eu vivesse num jogo, controlado pelo acaso, em que a cada rodada novos dados são jogados, novas cartas são colocadas sobre a mesa, e preciso repensar minhas escolhas, reprogramar meus caminhos e, para atender às novidades, como que me refazer. Eu me surpreendo com as mudanças. Eu me surpreendo ao ver que pensamentos se alteram, sentimentos mudam de intensidade e julgamentos novos são realizados a partir de perspectivas que me parecem muito mais abrangentes. Nesse processo eu me sinto cada vez mais integrado ao conjunto de potencialidades que marcam a minha existência, embora, com freqüência desconcertante, eu me sinta confuso e sem saber que elementos e variáveis considerar na hora de escolher aquilo que eu já sinto que quero escolher. Talvez tudo seja parte das brincadeiras desse estranho acaso, que ri de como nos forçamos tanto para não querer o que queremos e não escolher aquilo que tememos não nos dar segurança. Ele ri porque sabe que a qualquer momento poderá nos chacoalhar novamente e mudar todas as regras do jogo, e fazer com que o certo pareça incerto e o seguro pareça inseguro.


De tudo isso, acho que tiro um questionamento importante, embora ainda não respondido: devo estar ansioso a respeito do futuro quando sei que poderia estar me deixando levar por essa brincadeira toda que o acaso cria? E quanto devo adiar aceitar a brincadeira sabendo que, a qualquer momento, qualquer um de nós pode enfrentar a maior (talvez a única) de todas as certezas que temos ao nascer, que é o fim da brincadeira?

domingo, 25 de setembro de 2011

|::| Da dificuldade de se escrever com outras cores

Acho que se pararmos diante de qualquer grupinho de pessoas conversando, veremos alguém se lamentando de como sua vida traz, repetidamente, as mesmas decepções e experiências não desejadas. Sabem aquele tipo que sempre teve chefes detestáveis, ou sempre teve as mesmas decepções em sua vida amorosa, ou sempre conhece o mesmo tipo de gente? Pois é, o engraçado é que há bilhões de seres humanos, infinitas situações e possibilidades de vida e ainda conseguimos, aparentemente, repetir experiências.

E daí, quando olho lá para trás, para a infância mesmo, quando os desenhos que eu pintava eram multicoloridos, e havia orgulho em ter uma caixa de lápis com centenas de cores, fico pensando nessa coisa doida de repetirmos experiências. Vejo que com o tempo eu mesmo fui escolhendo cores e aprendendo que a grama deve ser pintada de verde e o céu de azul. O que é diferente disso é errado, pois não se encaixa na forma como organizamos o mundo. Quanto a isso, alguns podem argumentar que é uma espécie de mal necessário, considerando que compartilhar de sistemas de classificação similares facilita a convivência e a vida em sociedade. Sim, facilita mesmo e não vejo problema algum nisso, exceto quando nesse processo de encaixe, em que somos "formados" de acordo com moldes pré-existentes, jogamos fora as outras cores. Desaprendemos como pintar a nossa vida com cores diferentes.

Cada um de nós carrega uma mente ensinável, que pode moldar e treinar conforme vive. Essa é uma verdade absolutamente incrível que, ao ser aceita e usada, pode provocar verdadeiras revoluções em nossa vida ao longo do tempo. Cada vez que repetimos ações e que reforçamos pensamentos, estamos pouco a pouco construindo os padrões de comportamento – uma espécie de piloto automático para a nossa vida. Só que frequentemente esquecemos que se podemos criar, também podemos destruir, criar novos, alterar e assim por diante. No início, é apenas uma cor que nos parece fazer mais sentido na escrita de um episódio específico, mas com o tempo, o ambiente muda, a situação muda, o contexto muda e continuamos escrevendo com a mesma cor. E mais para frente, quase sempre, encontramo-nos reclamando daquilo que experimentamos na nossa vida, pouco cientes do trajeto que percorremos e da nossa responsabilidade na escrita da nossa história.

Não acho que em algum momento as mudanças serão mais fáceis. Escolher novas cores sempre produz momentos de desconforto. Estamos habituados a usar as mesmas cores na hora de pintar as nossas escolhas e sempre acharemos que estamos errando ao mudarmos. Isso se conseguirmos iniciar o processo de escolha de novas cores, porque o que acontece com mais frequência é nem pensarmos nessa possibilidade. Em alguns momentos, até veremos que algo está diferente, que a situação é nova e que há uma nova cor disponível, mas e a coragem para a mudança? Afinal, temos sempre a sensação de que já tentamos viver algo novo e mudar de vida, e sempre chegamos à conclusão descrente de que não há nada a fazer, pois as coisas são como são. Mas será que realmente estivemos alguma vez abertos à mudança? Ou estivemos sempre escrevendo e reescrevendo usando lápis das mesmas cores?

Há uma grande beleza em perceber que nenhuma cor precisa ser descartada, e que todas aquelas centenas de cores da infância sempre estiveram disponíveis a nós. Diante de cada nova situação, o que nos impede de procurar alternar ou adicionar cores que não estávamos usando anteriormente? O que nos impede de bagunçarmos os lápis e tentarmos escrever nossas histórias usando cores novas e variadas? O que nos impede é, simplesmente, o medo de correr o risco de nada mudar. E se o preço que pagaremos pela possibilidade de vermos que é possível viver o que realmente sonhamos é correr o risco de mantermos a vida que temos agora, então penso que vale a pena. Sim, vejo que vale bastante a pena.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

|::| Sobre a dor

E então nós vamos coletando experiências, presenciando acontecimentos, vivendo os nossos dias, e desfilando a nossa capacidade de sentir. Ao longo disso tudo, vamos transitando entre emoções e sentimentos. Hoje, partindo de tudo o que eu já vivi – e estou consciente de que é bem pouco – eu acredito que somos muito pouco lineares na forma como sentimos a vida. Em instantes viajamos por emoções opostas e contraditórias. A tristeza e a alegria, o amor e o ódio, a confiança e a insegurança, são opostos entre os quais oscilamos continuamente.

A nossa pequena consciência da interação complexa que se processa a todo momento entre nosso "mundo interior" e a leitura que fazemos do "mundo exterior", leva-nos a uma grande vulnerabilidade frente às sacudidas que as nossas emoções nos dão. Segundo a segundo estamos trabalhando as informações que captamos por todos os nossos sentidos e realizando agrupamentos, julgamentos e interpretações. Não acredito que haja qualquer experiência que fique gravada em nossa mente sem estar conectada a uma série de outras informações e experiências e sem que faça parte de uma rede de significados. O interessante é que essa nossa capacidade de processar, agrupar e julgar as coisas se desenrola automaticamente. Querendo ou não, tudo a que nos expusermos será encaixado e gravado em algum lugar de nossas memórias. Resta-nos entender em que medida podemos trabalhar as informações de forma a servirmos a escolhas conscientes.

Somos expostos a uma série de escolhas, às quais só estamos sensíveis à medida em que enxergamos as possibilidades que estão diante de nós. Ao experimentarmos tantas emoções e sentimentos diferentes ficamos conscientes de que podemos fazer algumas escolhas que nos levam a experimentar mais ou menos algumas emoções. Perceber isso traz, na minha opinião, alguns benefícios. Um deles é, para usar um linguajar bacana, o gerenciamento da dor. E por "dor" não estou me referindo à sensação física, mas a uma realidade psíquica, ao sofrimento emocional.

Não sei dizer o quanto cada um é mais ou menos tolerante ao sofrimento e à dor, mas a consciência de que temos a capacidade de reinterpretar acontecimentos talvez seja um caminho para gerenciarmos, mesmo que minimamente, a dor e o sofrimento. Quem sabe se cultivarmos essa capacidade possamos passar com mais leveza e equilíbrio pelos tantos momentos de decepção, frustração e dor que passaremos ao longo da vida?



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

|::| Deste quebra-cabeças

Às vezes me sinto montando um quebra-cabeças com a minha vida. Procurando pelas peças que faltam, pelas peças que se encaixam e por aquelas que irão completar blocos de sentido, formando um todo integrado, coerente, inteligível.

De vez em quando, passo meu tempo a procurar peças que se encaixem umas nas outras. Esses são os momentos em que quero dar sentido ao que experimento ao longo dos dias. Procuro partes de mim que juntas podem me trazer um pouco mais de tranquilidade, de serenidade. Na maioria das vezes, não encontro tantas quanto gostaria e passo ao drama de forçar o encaixe e de me fazer acreditar que as coisas estão de acordo com o que quero. No fim, a sensação é de que estou trapaceando no jogo de montar quebra-cabeças, tentando distorcer as peças a ponto de fazer com que peças se encaixem onde não deveriam se encaixar. E às vezes, por incrível que pareça, faço isso muito bem.

O trabalho de dar novo significado às experiências, histórias e fatos do dia a dia, que talvez seja realmente trapacear, alterando o formato das peças, não deixa de ser necessário. Afinal, creio que não seja apenas eu a colecionar episódios desagradáveis, que a princípio gostaria de esquecer, mas que não sendo esquecidos, são alterados, digeridos e vomitados num outro formato, tomando também sua parte, junto a outras pecinhas, na construção de mim mesmo.

Algumas vezes, peças que pareciam estar encaixadas, como que por mágica, tornam-se completamente desencaixadas e por mais que eu tente devolvê-las à sua posição original, não consigo e acabam no amontoado de peças com que lidarei depois. Nesse amontoado estão as peças abandonadas, ou por não fazerem mais sentido no todo, ou por nunca terem realmente feito sentido, ou porque ainda não sei onde colocá-las.

Há vezes em que sonho que nessa de montar meu quebra-cabeças, vejo peças novas surgindo. Nunca param de surgir. Peças vão se acumulando ao meu redor. Algumas delas tomam o lugar de peças que já estavam encaixadas e há outras que ao surgirem perturbam o encaixe de todas as outras peças, obrigando-me a começar a montar tudo de novo. Os sentidos, os significados, as histórias, os julgamentos, tudo, tudo precisa ser refeito.

Eu sei que poderia escolher ficar apenas com o pedaço que já foi montado, mas quando olho para os lados e vejo tantas outras peças ainda soltas, dispersas ou amontoadas, fico incomodado e curioso para descobrir que imagens e experiências elas compõem, e a que vida serei apresentado no momento em que as novas peças forem encaixadas. Mais de uma vez me vejo tendo que abandonar um pedaço e começar do zero um outro, com novas peças e novos encaixes.

Não posso reclamar. Gosto do que vejo e gosto de me ver diante de tantas peças, cada uma delas carregando em si a possibilidade de fazer com que o quebra-cabeças da minha história seja mais interessante, mais rico, mais cheio de vida. Já não acredito que um dia terminarei esse trabalho, mas, de certa forma, isso é tranquilizador.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

|::| Do transporte coletivo

Eu sempre disse que usar o transporte público é uma experiência antropológica riquíssima, mas hoje irei um pouco além e direi que usar o transporte público é uma experiência transcendental, um pré-requisito para a iluminação e uma etapa crucial para o entendimento de tudo o que há e mais um pouco. Alcancei essa compreensão enquanto eu me misturava ao TODO nesta manhã.


Acordei feliz, ao som de passarinhos cantando e as folhas das árvores balançando lá fora, movidas por uma brisa suave que carregava aromas restauradores da natureza. (Aham, senta lá, Cláudia). Na verdade, acordei ao som de sirenes de ambulância e buzinas, sentindo meu nariz coçar devido ao ar poluído de São Paulo. Saí de casa e me dirigi à estação de metrô mais próxima.


Cheguei à plataforma e, como de costume, a aglomeração estava grande. Após vários minutos parado no meio da multidão, sentindo-me parte de algo mais, algo maior, fenômeno tão bem explicado por Durkheim, fui sendo pouco a pouco levado para mais perto de conseguir entrar no vagão. Até que finalmente fui introduzido no metrô, carregado pela massa. Não que eu não quisesse entrar no vagão, e na verdade, esse era o meu objetivo, é claro, mas fazê-lo de forma tão... suave, fez com que a minha felicidade se intensificasse sobremaneira. A sensação de ser levado, como que flutuando, seria excelente caso não fosse acompanhada de forte sufoco, provocado não apenas pelo aperto, mas por aqueles inúmeros odores tão interessantes da manhã.


E sempre tem alguém mais..., como posso dizer..., comunicativo, que gosta de interagir e que cria diálogos inesquecíveis por sua objetividade simpática, abordando as pessoas à sua volta:


- Amigo, sabe aquele arroz que você comeu ontem no jantar, bem refogado, carregado de alho e cebola?

- Sei.

- Gostoso, né?

- Sim. Muito.

- Então, fica ainda mais gostoso se agora você fechar os olhos, pensar no arroz e segurar a sua respiração!


- Senhora, posso fazer uma pergunta?

- Sim, meu filho.

- Que perfume é esse que está usando?

- Ah, nenhum. Só o desodorante mesmo.

- Percebi.

- Que era meu desodorante?

- Sim, percebi tão bem que até detectei a data de validade dele.

- Ahn?

- Sabia que desodorantes vencem?


Os odores seriam os protagonistas do espetacular ato de usar o transporte público, caso não houvesse algo muito superior: a comprovação de que – pasmem! – SIM, é possível dois corpos ocuparem o mesmo espaço! Incrível, né? Séculos de mentes brilhantes debruçadas sobre os mistérios da física e em instantes todas as suas teorias são jogadas por terra...


O interessante é que em meio a tudo isso, descobri que posso atingir estágios superiores de percepção da realidade. Tudo é, mesmo, uma questão de perspectiva. Posso fechar os olhos ver que estou numa balada, gastando apenas poucos reais. Posso ser uma estrela do rock, recebendo o carinho de centenas de fãs enlouquecidos tentando me abraçar. Posso ser cobaia de uma experiência científica altamente avançada que fará com que o conhecimento e as capacidades de todas aquelas pessoas passem para mim.


E enquanto distorço a realidade, chego ao meu destino, saio do trem, e me dirijo ao prédio em que trabalho, preparado para pegar um elevador. Lotado!

domingo, 11 de setembro de 2011

|::| Dos tantos rascunhos

Segura o celular com a mão esquerda enquanto o movimento lento e indeciso da direita revela sua ansiedade. Ele experimenta seu momento mais ambíguo, vendo diante de si uma série de possibilidades às quais estivera, por tanto tempo, cego. Desta vez não se trata apenas de seguir um caminho ou não, mas de escolher como e em que momento chegar aonde quer. Como de costume, é movido por seu defeito mais persistente e perigoso: tentar com todas as suas forças ser o que julga dever ser, mesmo acreditando que está longe daquilo que acredita ser seu caminho.

Aguarda um pouco mais, pensando que talvez o aparelho toque antes, tirando dele a responsabilidade por suas escolhas. Verifica, mais uma vez, se recebeu algo, uma mensagem, um recado. Nada. Sem mensagens, sem recados na caixa postal. Sem ligações perdidas. Apenas um amontoado de rascunhos. De tentativas. De escolhas abortadas.

Não sabe que cada vez que não escolhe, está, ainda assim, fazendo uma escolha. E vai afastando de si, pouco a pouco, com uma certa elegância dolorosa, a possibilidade de descobrir que está todo errado. E como ele saberia disso se tudo o que vê é uma história cheia de expectativas frustradas? Talvez o segredo seja aceitar que há nada a esperar, embora espere e queira muito.

Enxerga bem as regras, mas não entende que quem as criou pode mudá-las, a qualquer momento, alterando a ordem das coisas e o sentido dos caminhos. A ele cabe apenas a responsabilidade por seus atos, nada mais, nada menos. Nunca poderá ser culpado pelas escolhas dos outros, embora eventualmente, talvez sem perceber, assuma esse peso como forma de evitar uma nova frustração.

Há limites para as tentativas que se faz ao longo de tantos anos na busca por calar o som desse vazio que ele sente tão bem? Existe alguma regra que defina até onde se deva ir na busca da realização daquilo que se é?

Talvez haja a sensação de que nada, nunca, tenha sido algo mais do que um rascunho, do que um projeto frustrado. Mas o que possivelmente não esteja claro é que em algum momento, perdido entre tantos rascunhos, possa surgir o início do desenho da vida com que ele sonhou.

O celular toca. Ele sabe como atender?


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

|::| Do começo da história

Sabendo que alguma coisa mudara, ele fecha a porta atrás de si e acende as luzes da sala. Observa aquele silêncio. A solidão. O vazio. Seu sofá, sua televisão, seu videogame. Seus objetos, seus livros. Tudo, sem exceção, um amontoado de pequenas coisas que compõem seu lar. Mas hoje, ele não sente como se ali fosse realmente seu lar. Sente-se estranho. Sente-se fora de contexto. Sente-se fora de si.

Fecha seus olhos e se transporta a horas antes. Tudo ainda está tão nítido em sua memória que ele é capaz de sentir o cheiro, o gosto, o calor e a textura. Horas antes ele sabia bem o que queria e para onde estava indo. Agora, ele é apenas capaz de pensar naquele beijo. Não vê nada diante dele, exceto um desejo inexplicável, com o qual ele ainda luta para se manter sob controle.

Esforça-se para manter-se no chão. Para manter-se nele mesmo. Mas já é tarde. Logo será dia novamente, e ele verá que há nada a fazer. Ele já não é dele. Ele já não é mais só ele. Algo de milagroso e surpreendente aconteceu durante aquele beijo. Sua lógica e raciocínio são incapazes de lhe dar explicações satisfatórias. Ele sabe o que quer, mas não entende o porquê de seu desejo.

Ele ainda não sabe que está apaixonado. Mas com o tempo, vai descobrir.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

|::| Do fim das férias

Se há algo que pode irritar uma criança, tirar seu sono e fazer com que ela deseje a morte a facadas, é passar por aquele momento de extrema e insana tortura pré-férias em que sua professora diz – Vou passar uma tarefa para as férias de vocês! – A desgraçada ainda faz caras de felicidade. Obviamente, é uma dominadora sadomasoquista enrustida, sanguinária entre quatro paredes. Esse realmente é um momento de terror.


Mas, quando crianças, mal sabemos que haverá algo muito pior do que as tarefas para as férias. Na idade adulta, precisaremos passar pelo retorno das férias de trabalho. Sim, isso sim é o fim dos tempos. Isso sim cria desejos profundos por harakiris, ou por enforcamentos, ou por asfixiamento, ou qualquer morte ritualística capaz de demonstrar, simbolicamente, o horror da situação vivida.


Precisamos ler milhares de e-mails, lembrar de onde paramos nas atividades que realizávamos antes das férias e nos atualizar quanto às fofocas sobre as dinâmicas recentes do poder dentro da empresa (quem demitiu quem, quem puxou o tapete de quem, quem foi promovido, quem xingou o chefe, etc, etc). Tudo isso, óbvio, além de trabalhar, pelo menos alguns dias, por dois ou três, pois é claro que o mundo não parou durante as nossas férias. Pelo contrário, nesse período, muito provavelmente, as maiores bombas estouraram, houve mudanças na estrutura da empresa, produtos foram lançados, pessoas foram demitidas, pessoas foram contratadas, enfim, o retorno é sempre caótico.


Sabem aquele negócio de “vou correr para deixar tudo organizado pois vou sair de férias”? Então, que bonito isso, não é? Durante suas férias, o mundo encarregar-se-á de produzir uma das forças mais bonitinhas e agradáveis do universo: o CAOS. Durante dias lutaremos em vão para tornar todas as coisas ao estado desejado de equilíbrio pré-férias e descobriremos, um ano depois, que as coisas só nos parecerão em ordem novamente quando estivermos diante de nossas próximas férias.


É óbvio que se esse processo continua se repetindo, é porque de alguma forma ele funciona e cumpre algum papel. O caos é, afinal, em certa medida, produtivo. Nada como vermos tudo bagunçado para nos animarmos a refazer, recriar e reorganizar coisas. E nesse processo, quem sabe não saiamos para as próximas férias um tanto mais satisfeitos do que saímos para as últimas? No pior dos cenários, não teremos férias nunca mais e não precisaremos lidar com tanto caos...