domingo, 11 de setembro de 2011

|::| Dos tantos rascunhos

Segura o celular com a mão esquerda enquanto o movimento lento e indeciso da direita revela sua ansiedade. Ele experimenta seu momento mais ambíguo, vendo diante de si uma série de possibilidades às quais estivera, por tanto tempo, cego. Desta vez não se trata apenas de seguir um caminho ou não, mas de escolher como e em que momento chegar aonde quer. Como de costume, é movido por seu defeito mais persistente e perigoso: tentar com todas as suas forças ser o que julga dever ser, mesmo acreditando que está longe daquilo que acredita ser seu caminho.

Aguarda um pouco mais, pensando que talvez o aparelho toque antes, tirando dele a responsabilidade por suas escolhas. Verifica, mais uma vez, se recebeu algo, uma mensagem, um recado. Nada. Sem mensagens, sem recados na caixa postal. Sem ligações perdidas. Apenas um amontoado de rascunhos. De tentativas. De escolhas abortadas.

Não sabe que cada vez que não escolhe, está, ainda assim, fazendo uma escolha. E vai afastando de si, pouco a pouco, com uma certa elegância dolorosa, a possibilidade de descobrir que está todo errado. E como ele saberia disso se tudo o que vê é uma história cheia de expectativas frustradas? Talvez o segredo seja aceitar que há nada a esperar, embora espere e queira muito.

Enxerga bem as regras, mas não entende que quem as criou pode mudá-las, a qualquer momento, alterando a ordem das coisas e o sentido dos caminhos. A ele cabe apenas a responsabilidade por seus atos, nada mais, nada menos. Nunca poderá ser culpado pelas escolhas dos outros, embora eventualmente, talvez sem perceber, assuma esse peso como forma de evitar uma nova frustração.

Há limites para as tentativas que se faz ao longo de tantos anos na busca por calar o som desse vazio que ele sente tão bem? Existe alguma regra que defina até onde se deva ir na busca da realização daquilo que se é?

Talvez haja a sensação de que nada, nunca, tenha sido algo mais do que um rascunho, do que um projeto frustrado. Mas o que possivelmente não esteja claro é que em algum momento, perdido entre tantos rascunhos, possa surgir o início do desenho da vida com que ele sonhou.

O celular toca. Ele sabe como atender?


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

|::| Do começo da história

Sabendo que alguma coisa mudara, ele fecha a porta atrás de si e acende as luzes da sala. Observa aquele silêncio. A solidão. O vazio. Seu sofá, sua televisão, seu videogame. Seus objetos, seus livros. Tudo, sem exceção, um amontoado de pequenas coisas que compõem seu lar. Mas hoje, ele não sente como se ali fosse realmente seu lar. Sente-se estranho. Sente-se fora de contexto. Sente-se fora de si.

Fecha seus olhos e se transporta a horas antes. Tudo ainda está tão nítido em sua memória que ele é capaz de sentir o cheiro, o gosto, o calor e a textura. Horas antes ele sabia bem o que queria e para onde estava indo. Agora, ele é apenas capaz de pensar naquele beijo. Não vê nada diante dele, exceto um desejo inexplicável, com o qual ele ainda luta para se manter sob controle.

Esforça-se para manter-se no chão. Para manter-se nele mesmo. Mas já é tarde. Logo será dia novamente, e ele verá que há nada a fazer. Ele já não é dele. Ele já não é mais só ele. Algo de milagroso e surpreendente aconteceu durante aquele beijo. Sua lógica e raciocínio são incapazes de lhe dar explicações satisfatórias. Ele sabe o que quer, mas não entende o porquê de seu desejo.

Ele ainda não sabe que está apaixonado. Mas com o tempo, vai descobrir.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

|::| Do fim das férias

Se há algo que pode irritar uma criança, tirar seu sono e fazer com que ela deseje a morte a facadas, é passar por aquele momento de extrema e insana tortura pré-férias em que sua professora diz – Vou passar uma tarefa para as férias de vocês! – A desgraçada ainda faz caras de felicidade. Obviamente, é uma dominadora sadomasoquista enrustida, sanguinária entre quatro paredes. Esse realmente é um momento de terror.


Mas, quando crianças, mal sabemos que haverá algo muito pior do que as tarefas para as férias. Na idade adulta, precisaremos passar pelo retorno das férias de trabalho. Sim, isso sim é o fim dos tempos. Isso sim cria desejos profundos por harakiris, ou por enforcamentos, ou por asfixiamento, ou qualquer morte ritualística capaz de demonstrar, simbolicamente, o horror da situação vivida.


Precisamos ler milhares de e-mails, lembrar de onde paramos nas atividades que realizávamos antes das férias e nos atualizar quanto às fofocas sobre as dinâmicas recentes do poder dentro da empresa (quem demitiu quem, quem puxou o tapete de quem, quem foi promovido, quem xingou o chefe, etc, etc). Tudo isso, óbvio, além de trabalhar, pelo menos alguns dias, por dois ou três, pois é claro que o mundo não parou durante as nossas férias. Pelo contrário, nesse período, muito provavelmente, as maiores bombas estouraram, houve mudanças na estrutura da empresa, produtos foram lançados, pessoas foram demitidas, pessoas foram contratadas, enfim, o retorno é sempre caótico.


Sabem aquele negócio de “vou correr para deixar tudo organizado pois vou sair de férias”? Então, que bonito isso, não é? Durante suas férias, o mundo encarregar-se-á de produzir uma das forças mais bonitinhas e agradáveis do universo: o CAOS. Durante dias lutaremos em vão para tornar todas as coisas ao estado desejado de equilíbrio pré-férias e descobriremos, um ano depois, que as coisas só nos parecerão em ordem novamente quando estivermos diante de nossas próximas férias.


É óbvio que se esse processo continua se repetindo, é porque de alguma forma ele funciona e cumpre algum papel. O caos é, afinal, em certa medida, produtivo. Nada como vermos tudo bagunçado para nos animarmos a refazer, recriar e reorganizar coisas. E nesse processo, quem sabe não saiamos para as próximas férias um tanto mais satisfeitos do que saímos para as últimas? No pior dos cenários, não teremos férias nunca mais e não precisaremos lidar com tanto caos...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

|::| Dos Enganos

Então eu decidi vir postar um texto que escrevi há alguns dias, sobre meu retorno ao trabalho, após duas semanas de férias, e vi que há quase três meses eu não posto nada. Nada, entendem? Iniciei o ano imaginando que seria o ano das postagens. Achei que ia escrever pelo menos um texto por semana... e vejam só o que aconteceu. Quase nada.

Obviamente que isso me fez pensar sobre como nos enganamos, né? E pior, nós nos enganamos de forma totalmente inocente. Eu realmente acreditei que seria um ano diferente dos anteriores. Um ano em que eu me engajaria a expor mais a minha opinião sobre tanta coisa tenebrosa que a gente vê por aí (e por aqui). Como vêem, não tem acontecido exatamente como o planejado. Pelo menos não até o momento. Mas como sou brasileiro e não desisto nunca (bla, bla, bla), ainda acredito que será o ano em que mais textos serão postados neste humilde, muito humilde, blog.

Voltando ao assunto, é interessante ver como nós nos enganamos. Fazemos planos mirabolantes que desafiam os nossos hábitos. Como se fosse fácil alterar num abrir e fechar de olhos comportamentos e caminhos seguidos ao longo de anos. Talvez esteja aí um de nossos maiores e mais frequentes enganos: a crença na rápida mudança de nossos hábitos. Se eu nunca consegui ser tão engajado neste blog quanto eu gostaria, o que faria isso mudar apenas porque 2010 se transformou em 2011?

Não sei bem porque não postei nada ao longo desses meses. Cheguei a começar muitos textos, mas nenhum me agradou ao ponto de aparecer por aqui. E quando me refiro a "agradar", estou apenas me referindo àqueles textos que fazem sentido para mim e que me dão uma sensação de encaixe, quer sejam bons, quer sejam ruins.

Tive vontade de escrever sobre tanta coisa. Eu me revoltei com tanta coisa. Tem tanta coisa estranha acontecendo... Tem gente dizendo que o mundo vai acabar, pra variar... Tem gente marchando por tudo quanto se possa imaginar. Aliás, há marcha para tudo hoje em dia, não é? Até para o que é completamente fora de contexto marchar. Mas isso é tema para algum outro post. Neste aqui eu só quis falar dessa minha surpresa ao ver que tenho andado tão descuidado com este blog...

Segue, logo mais, um textinho novo...

domingo, 29 de maio de 2011

|::| Das atribuições de significado

Diante da percepção da passagem do tempo, é impossível vez ou outra não me perguntar sobre o valor que atribuo a tudo o que faz parte da minha vida. O amontoado de escolhas feitas e seus frutos estão aqui, cercando-me, envolvendo-me, lembrando-me da história que me conto diariamente. A história que escrevo ininterruptamente de acordo com aquilo que acredito - ou aquilo a que me induzo acreditar - ser o que devo fazer.

Valores, crenças, princípios, visões e conceitos, todos se misturando e pavimentando o caminho que se estende à minha frente. Todos formando algo muito difícil de entender: eu mesmo. E volta e meia fazendo com que eu torne a falar disso tudo. Torne a falar de mim e desse emaranhado de escolhas.

Seguir por um caminho em que há muito pouca certeza nunca deve ter sido fácil e, portanto, não me martirizo pelas tantas dúvidas e questionamentos que às vezes me atormentam. Estou, sim, caminhando no escuro, acreditando que o que me aguarda mais à frente é a realização dos meus sonhos, mesmo que estes sejam tão frágeis quanto balões de ar sendo levados pelo vento em meio a um terreno coberto por cactus.

Tão frágil quanto um balão de ar voando entre espinhos, no escuro: é assim que me sinto. Reconheço que não há qualquer garantia de que o vento será benevolente comigo. Sei bem que a qualquer momento, posso desfazer-me em pedaços. E nada disso faz de mim algo mais ou algo menos do que qualquer um que tenha caminhado sobre o chão da terra.

Ser capaz de enganar-se é uma dádiva quando a realidade é, de verdade, um amontoado de bobagens às quais eu mesmo aleatoriamente dou valor? O risco de a qualquer momento eu me ver enganado pela crença que deposito em tudo o que me cerca constantemente é revelado nas sutis e insignificantes mentiras a que me exponho. E, mesmo assim, tenho optado por seguir aquilo o que sinto ser o melhor, sem saber se o melhor é, também, uma frágil criação minha.

Continuo andando sobre a corda bamba, sem saber se é melhor a tranquilidade duvidosa da ignorância ou a agitação das dúvidas que acompanham a verdade ou algum meio termo sobre o qual ainda sei quase nada...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

|::| Da minha sombra

Olho para as minhas mãos, ainda molhadas. A torneira continua aberta, e o som da água descendo pelo ralo da pia completa a sensação de que minhas mãos, agora sim, estão limpas. Seco as minhas mãos e só então fecho a torneira, interrompendo o fluxo de água. Olho para a frente, para o espelho, e assustadoramente me encanto por me achar tão estranho. Tem momentos em que me acho muito estranho, muito outra pessoa.

Essa sombra que me acompanha e que me é tão nítida, quase palpável em alguns momentos, não raramente confunde a minha mente. Ela brinca comigo e me diz coisas sobre as quais eu nunca pensei. Implanta dúvidas e intrigas. Durante as noites, infla meus medos e diverte-se com minhas inseguranças. Ela ri de mim. Ela caçoa da minha fraqueza.

O que mais me intriga é que também é ela que me traz essa sensação forte de que sou nada mais, nada menos, do que um ser humano. Sou um animal, parte de um bando de animais que tenta aos poucos transcender sua animalidade, aparentemente sem notar que não há absolutamente nada a transcender. Há apenas o que se é e o que se pensa ser. E minha sombra tem se tornado mais forte, mais presente, conforme silencio a busca por transcendência e dou um passo atrás para entender essa sombra. Para entender o que sou.

Não é confortável ser cada vez mais consciente de tanta sombra, mas quando ouço que crianças são assassinadas por alguém carregando uma carta onde pede perdão a Deus e faz exigências quanto à pureza das mãos que tocarão o seu corpo após a sua morte, acho que tem valido a pena esse passo atrás. Vale a pena olharmos menos para fora e para o alto, e um pouco mais para baixo e para dentro.

terça-feira, 5 de abril de 2011

|::| Sobre tempos, comemorações e conexões

Semana passada foi meu aniversário, sabem? Aquela data em que alguns insistem em me tratar diferente, embora eu não entendesse bem o porquê. Afinal, para mim, a princípio, meu aniversário significava apenas o resultado direto do fato de que existe um ciclo de tempo a que chamamos "ano" e que se repete, por incrível que pareça, anualmente.

O interessante do tempo e dos efeitos de sua passagem sobre nossa percepção das coisas, é que eu tenho visto que há certo valor nas comemorações de datas, embora enquanto cientista social já estivesse mais do que claro na minha mente o papel dos ritos e das comemorações. Sim, tenho mudado de opinião e, neste ano, os abraços de pessoas estranhas e as mensagens que me enviaram nem me incomodaram. Na verdade, cheguei à conclusão de que para o próximo ano, quero muitas festas, presentes e pessoas me bajulando. Quererei pessoas dizendo que a minha participação no mundo é, de alguma forma, impactante.

O aniversário passou, me deparei com a realidade de que definitivamente estou na fase dos vinte e muitos anos e notei que minhas preocupações têm se alterado. Acredito que como reflexo do momento de vida, de uma certa estabilização em alguns aspectos, passo a sentir uma necessidade crescente de me transbordar para fora do meu pequeno mundo. Talvez meus 28 anos já sejam suficientes para que eu me arrisque a opinar mais... Afinal, venho reparando em tanta coisa que considero absurda acontecendo ao meu redor... Tem até deputado se referindo negativamente a parcelas grandes da população. E vejo que há pouca gente pensando sobre o quanto esse tipo de coisa impacta a nossa sociedade.

Enxergamos muito pouco a extensão dos efeitos que cada ação individual possui. Aprendemos a buscar nossos interesses pessoais, a escolher o que o "eu" quer comer, vestir, falar, experimentar, e nesse processo muito cheio de umbigocentrismo, aparentemente estamos menos ligados aos efeitos em massa dos comportamentos individuais.

Tenho estado particularmente chateado com a falta de sensibilidade e de uso da inteligência de algumas pessoas que possuem certa evidência social. Acredito que a inteligência é um recurso mental do qual todos somos dotados, mas aparentemente o uso que fazemos dele depende dos interesses de cada um.

Existe tanta diversidade no que diz respeito a comportamentos, pensamentos e estilo de vida, que fica muito difícil definir o que é um estilo de vida "humano". Mesmo se olharmos para um grupo pequeno, uma família, ou amigos, ainda assim encontraremos várias diferenças e particularidades. Embora haja grupos que compartilhem de fundamentos comuns, a forma como cada um se apropria dos elementos culturais e os frutos dessa absorção individualizada da cultura gera tantos estilos de vida possíveis quanto há pessoas no mundo. Mas, mesmo assim, há aqueles que insistem em agrupar as pessoas e condenar grupos inteiros devido ao seu "estilo de vida".

Bom, vamos usar um pouco a cabeça e pensar, a título de exemplificação. Na África há uma parcela grande da população infectada pelo vírus do HIV. Bom, então, se alguém não quiser ser HIV positivo, deve evitar ter um "estilo de vida africano"? Quando Durkheim escreveu o livro "o suicídio", ele constatou que a taxa de suicídios entre protestantes é a maior entre as religiões. Então, como uma das medidas para redução do suicídio devemos evitar o "estilo de vida protestante"? Não sei para vocês, mas para mim faz sentido que o estupro de mulheres é feito, geralmente..., por homens de orientação heterossexual. Isso quer dizer que o "estilo de vida heterossexual" leva ao estupro?

Depois desse exercício, vamos voltar ao tema do começo. Voltar ao fato de que estamos muito pouco atentos ao efeito que cada um tem sobre o todo. Considerando isso, qual o efeito que eu produzo cada vez que eu aceito, repasso e compactuo com declarações e dizeres completamente infundados, não pensados e irracionais como os citados acima? A todo instante há pessoas dizendo que os pobres são inferiores, ou que os negros são inferiores, ou que as mulheres são inferiores, ou que os evangélicos são inferiores, ou que os gays são inferiores, ou que os idosos são inferiores. E crueldades persistem porque há gente propagando falsos entendimentos do que é a vida humana. Há muita gente querendo fazer calar a voz rica e bonita da diversidade. Seria melhor se soubéssemos nos calar quando o que temos a dizer é uma completa babaquice.