sexta-feira, 14 de agosto de 2009

|::| Talvez

Não sei se brinco de me enganar, se me engano brincando, ou se me engano que me engano. Talvez. Aquela sensação que sobra, depois que os perfumes penetrantes evaporam, depois que escurece, é de falta. De vazio. De desperdício. De decepção.

Talvez eu tenha preferido os enganos. Talvez eu esteja pagando os preços. Os juros, ainda, por ter recebido tanto de uma vez.

É claro, tento entender. Sempre tento. E, sem entender, me desentendo, comigo, com meus enganos, com meus ganhos, talvez.

Será que sou tão cego? Será que sou tão surdo? Porque quanto mais tento ver, menos vejo. E como tenho tentado ouvir, mas não ouço. Ouço nada, e vejo nada. Nenhuma intenção, nenhuma vontade, nenhuma mudança. E se só eu me enganar? Basta? E se só eu me bastar? Basta?

Ah, como eu me engano. Sim, como eu me engano!

Será que isso é tudo? Será que é só isso? A parte que me cabe, a herança a que tenho direito, o presente que recebi, é isso? Tal vezes em que são feitas brincadeiras de mau gosto.

Ou eu fecho os olhos e me esforço pra continuar enxergando o que não está mais à minha frente, ou eu abro os olhos e me esforço pra viver sem aquilo que está só na minha mente.

Ah, como eu me engano. Ah, como eu me canso.

E se o sábio estiver certo, e se é sábio, certamente estará, havendo tempo pra tudo, a hora vai chegar. Porque esperar, mesmo sentado, até mesmo deitado, cansa.

terça-feira, 2 de junho de 2009

|::| Antropologando no Hospital

Não. Obviamente não é agradável passar um dia no Hospital. Ainda mais quando não é você o doente. Se fosse, bastaria se contorcer como uma minhoca prestes a perecer num anzol, gritar como uma maritaca que cheirou cocaína, e torcer, como um corintiano apaixonado na final da série B, para que algum médico desavisado se sentisse comovido e injetasse em você um daqueles remédios pra dor de cavalo. Isso o colocaria naquele mundo de sonhos silencioso, onde o tempo passa num abrir e piscar de olhos. E você acordaria alegremente zonzo com uma enfermeira simpática (sou politicamente correto, vocês sabem, né?) perguntando se você prefere sopa de ervilha ou creme de mandioquinha com cogumelos.

Infelizmente, não foi o meu caso. Movido por aquela chama de compaixão que arde dentro de todos nós, candidatei-me a ser uma espécie de personal acompanhator plus 2000 da vizinha sozinha e velhinha que mora no apartamento de cima, a quem eu só conhecia pelos sons feitos por sua bengala agredindo o chão, que, no caso, é o meu teto.

Ela escorregara enquanto tentava salvar um vaso de flores depois que ela tropeçou, perdeu o equilíbrio, esbarrou num pratinho de enfeite que recebera de presente da bisneta, bateu com o pé sem querer numa cadeira que tombou, chocando-se com a mesinha onde fica o vaso que finalmente foi salvo enquanto ela tentava se equilibrar. Ela não salvou o pratinho feio da bisneta, fato que contribui diretamente para a melhoria do mundo, porque, convenhamos, esses pratinhos não servem pra nada, a não ser que como a rainha dos baixinhos você também veja duendes, e ainda dê de comer a eles. Penso não ser o caso da vizinha de cima, já que após me confundir com seu marido falecido várias vezes, passei a desconfiar de que além de colecionadora de pratinhos, ela também é míope, bem míope e, agora, temporariamente perneta, já que no fim das contas, nesse processo desastrado e desastroso, ela torceu o pé, quebrou três costelas e a unha do mindinho da mão esquerda.

Depois de ouvir um som diferente, atípico e não similar às pancadas da bengala da vizinha sozinha do apartamento de cima, resolvi subir e descobrir o que houve. Descobri. Descobri o que houve, descobri o que ouvi, e também descobri que a curiosidade não é boa conselheira, pois nessa brincadeira de detetive eu fui o primeiro a atender os gemidos da vizinha. Isso me colocou, inevitavalmente, devido ao meu bom e quente coração, na posição de ajudá-la a ir até o hospital mais próximo. Voltei rápido para o meu apartamento, peguei um livro, meu ipod, meu RG, meu cartão de crédito, uns cartões de visitas, meu celular e uma máscara, pra me proteger da nova gripe mortal e do cheiro do hospital.

Chamei um táxi, coloquei a vizinha numa cadeira de rodas aqui do condomínio, e a levei até o carro. Entramos e fomos. Chegando ao hospital, fui até a recepção pra entregar os documentos da vizinha e acertar as coisas para agilizar seu atendimento. Alguns minutos depois, a vizinha foi levada por umas pessoas estranhas todas de branco, e eu fiquei algumas horas esperando enquanto ela era submetida a uma série semi-interminável de exames. Depois ela me contou que passara por torturas, que colocaram uma luz forte na sua cara e perguntaram sobre sua infância, atiraram raios supersônicos nela, apertaram seus seios, enfiaram veneno na sua nádega esquerda, implantaram um chip na direita, escutaram seus pensamentos numa máquina que girava ao seu redor e que ainda perguntaram se ela usava algum tipo de medicamento.

Uma mocinha guti guti chegou e se sentou ao meu lado. Endireitei a coluna, lembrando da minha vó que sempre diz "mulher gosta de postura ereta!"... Olhei rápido pra ela e percebi que rolou uma troca energética. Quando eu ia fazer um comentário cult sobre o estado metereológico de São Paulo, uma mulher de branco, talvez uma enfermeira, talvez uma assistente de enfermagem, ou talvez uma mulher de branco, apenas, gritou um nome, que logo percebi que era da mocinha ao lado. Ela se levantou, olhou pra mim com um olhar "me espera na saída", e caminhou até a mulher de branco.

Com preguiça de ler, e vendo que já havia ouvido todas as mais de 20 mil músicas do ipod, resolvi praticar uma das artes antigas, obscuras e místicas da antropologia: escutar as conversas alheias. Foi aí que descobri coisas incríveis que acontecem num hospital.

Por exemplo, percebi que é o melhor lugar do mundo pra você descobrir tudo sobre a vida das pessoas. Os médicos e enfermeiros ficam falando alto coisas como: João, desde quando você tá com diarréia? Márcia, a flatulência é constante? Pedro, esse hálito putrefato é persistente? Joana, de que cor está seu catarro?....

Uma simpática senhora sentou-se perto de mim e puxou conversa. Disse que estava lá no hospital pela quarta vez na semana. Segundo ela, suas dores eram "combinadas". Tipo assim: na segunda dói o pé direito e o ombro esquerdo. Na terça, dá dor de estômago e de cabeça. Na quarta, dóem as juntas das pernas, e os ouvidos. Na quinta, é a vez dos dedos do pé e do cotovelo. Na sexta, ela chora com as dores da artrose do braço direito. No sábado, ela disse que descansa. E no domingo faz dança de salão. Dessa vez ela estava ali devido a uma nova dor. Desconfiava que havia quebrado as costelas dançando salsa com um tal de Ruan. Tinha um filho e uma filha. Os dois envolvidos com a área da química: a filha, engenheira de uma multinacional, e o filho, dependente, numa clínica de reabilitação. Ela estava começando a contar do ex-marido quando foi chamada por outra mulher de branco.

Poucos minutos depois, chegou um rapaz mancando. Disse pra atendente da recepção que precisava de um ortopedista, pois havia torcido o pé jogando vôlei. Simpático, sentou-se e foi logo puxando assunto com todos à volta. Contou que estava com uma dor lancinante, e que estava com medo de nunca mais voltar a andar, pois lera na internet, numa comunidade chamada "eu torci meu pé e tive que amputá-lo" que isso acontece de vez em quando. Contou que nunca sentira tanta dor e que no começo pensou que estava morrendo. Um senhor sentado próximo ao rapaz contou que já havia torcido o pé 13 vezes e que não era nada demais. O rapaz arregalou os olhos e perguntou se era normal sentir frio depois de torcer o pé. Ao que o senhor respondeu: "sim, quando está frio como hoje, é normal".

Antes de ouvir o restante da história, minha atenção foi desviada para a porta que se abriu. Foi um misto de tristeza e alegria. Alegria porque finalmente a vizinha sozinha do andar de cima estava saindo, e tristeza porque ao lado dela também estava saindo a mocinha docinho de côco. Eu me levantei sem saber se me dirigia à vizinha de cadeira de rodas, ou à mocinha de sapatos vermelhos. Foi aí que escutei uma mulher se dirigindo à mocinha e dizendo: se o mau cheiro e o corrimento persistirem até amanhã, procure um ginecologista.

Foi fácil decidir. Voltei na companhia da vizinha acidentada, feliz da vida por eu ter um coração tão generoso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

|::| Ma[´]drugada

Estou com medo de dormir agora e perceber, ao acordar, que algo está faltando. Também tenho medo de dormir e ao acordar sentir que algo não está faltando. Toda noite, a morte de como me manifesto agora. Toda manhã, uma leve memória de uma vida que se torna mais vívida conforme as horas do dia passam por mim. Toda noite, uma vida longe dos problemas e dos detalhes que dificultam os meus dias. A cada manhã, a morte daquela vida de sonhos, manifestada nos sonhos. Vida que se recicla e se mantém sempre, parecendo, afinal, ser o início e o fim de todas as coisas. Dela não se escapa. Sua presença sempre está por aí, por aqui, em todos os lugares, brincando com a gente, com as gentes e com as mentes de todas as gentes que olham pra ela enquanto a experimentam. Sempre rindo, e a cada risada uma nova manifestação de sua força. Somos seus escravos e iludidamente imaginamos que ela escorre para longe de nós. Nunca. Tudo o que somos é ela, e enquanto formos algo - e sempre seremos - ela estará presente, viva. Vida viva, sempre viva, sempre vida. Como eu gostaria de saber menos e poder querer, sem sentir que a minha consciência resiste, que as coisas fossem mais claras. Clareza que só procuro porque seu gosto ainda está aqui na minha boca. Tenho medo de dormir e acordar no escuro, descobrindo que o sol mais brilhante da manhã mais clara da estação mais exuberante do ano embaralha todos os meus pensamentos e me faz duvidar de quem sou. Se é que sou alguma coisa. Talvez a clareza da noite seja como a bravura de um fraco lutador um dia antes de se inscrever numa competição para a qual desconfia estar despreparado. Tenho medo de acordar e fazer escolhas diferentes das que eu quero fazer agora. Tenho medo de acordar muito mais fraco. E descobrir, mais um dia, que sou incapaz de ser diferente daquele que sempre acabo sendo no dia seguinte.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

|::| Maya

Ela tirou férias de mim. Saiu assim meio sem avisar, como quem vai ao supermercado da esquina comprar maçãs e demora o suficiente pra que você calcule quanto tempo se passou. Eu já imaginava que era ela quem me soprava os tons e as rimas de todas as canções que inventei. Agora sei que os sabores, as cores e os aromas eram todos artificialmente injetados em mim, dando a falsa sensação de que o mundo é agradável.

Ela tirou férias de mim. Saiu assim meio devagar, como quem se levanta no meio da noite sem acordá-lo. Eu já imaginava que ela era leve como aquele pedaço de algodão que cai da nossa mão antes de tocar a ferida. Agora sei que os sons eram delicadamente colocados em meus ouvidos, dando a falsa sensação de que havia silêncio.

Ela tirou férias de mim. Saiu. Eu já imaginava. Agora sei.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

|::| Ipodiando a la Saramago

Por que preciso de uma namorada se tenho um Ipod, pensava Sócrates enquanto fazia a barba em frente ao espelho embaçado do banheiro público da estação de metrô Sé. Achara uma gilete no lixo da esquina sem saber de sua crise de vocação, Sou uma gilete ou uma faca de açougue. Droga de gilete, cortei a minha pinta. Podia ser pior, disse alguém que acabara de entrar, É, eu podia ter trocado o artigo. Lavou o rosto, guardou a gilete junto com o cortador de unhas enferrujado e a garrafinha de gatorade que costuma usar como pinico improvisado, Tudo serve e o que não serve eu jogo no lixo, era a idéia central de sua filosofia. Foi no lixo que Sócrates encontrou o Ipod. Por que raios alguém joga esse tipo de coisa fora, era a pergunta que martelava sua cabeça.

A manhã tinha sido clara, ensolarada, quente, e fria quando o vento batia. Agora, meio-dia, o maltrapilho Sócrates olhando pro sol, imaginando de que serviria sua vida se encontrada num latão de lixo, Quem me pegaria e levaria consigo. Ninguém, talvez, ou mendigo, talvez, ou criança curiosa, talvez, ou o IML. Com os fones do Ipod nos ouvidos, Sócrates sente-se interiormente expandido, como se ao pressionar o play abrisse portas internas infinitas que lhe tornam grande, bem maior do que supusera. Corredores embaralhantes, pensamentos viajantes e viajantes pensantes que param frente às bifurcações da mente e decidem coisas opostas. Sem saber, ele sabe demais sobre os desejos que tantas vezes bifurcam os caminhos tranquilos suavemente desenhados por aquele eu lobo em pele de cordeiro que brinca com a gente.

Hoje ele encontra nos lixos os tesouros que anteriormente neles jogara. Primeiro pensara que havia vivido em descarado desperdício. Hoje sabe que seu lixo era o tesouro dos outros. Meu precioso, meu ipod, repetia para si, sabendo muito, mas muito pouco sobre seu tesouro mais recente. Ele sequer imagina que a playlist é limitada. Ele sequer sabe o que fará quando a bateria acabar.

Você sabe. Sim ou não.

sexta-feira, 27 de março de 2009

|::| Táticas de guerra

Toda suada, Maria abre os olhos lentamente, quase com medo de se descobrir em outro lugar. O mundo vai ganhando forma aos poucos. Como se retornando de um transe, ela respira fundo e profundamente forte. Sente-se arrepiada, e puxa o lençol, cobrindo sua nudez; cobrindo-se dele. O pesadelo. Mais uma vez. O mesmo.

As noites de domingo para segunda-feira são sempre assim. Pelo menos desde que começou a lecionar naquela escola de educação infantil. Maria se vê nua, segurando um giz branco que escorrega enquanto ela tenta, em vão, escrever seu nome numa lousa gigante, talvez infinita. Ela percebe que está sendo encarada por milhares de alunos, de todos os tamanhos, crianças, adultos, jovens, idosos, altos, magros, gordos, baixos, loiros, morenos, pretos, pardos, vestindo roupas, uniformes, calças, saias, vestidos, bermudas, camisetas, vestindo nada. Sente-se observada pelo mundo todo, e pressionada a realizar talvez uma das mais simples tarefas do mundo: escrever seu próprio nome. Mas a lousa está escorregadia. Parece molhada. Maria tenta em vão usar o giz, que fica coberto por uma substância viscosa e vermelha. "É sangue!", é o grito que Maria solta logo antes de acordar.

Semanalmente Maria está lá no consultório do seu terapeuta, contando seu pesadelo, novamente, enquanto ele a olha com uma expressão que parece um misto de tédio e fome. "Nunca mais marco consulta para o meio-dia", é a única coisa que passa pela cabeça dele. "Como era seu relacionamento com seu pai?". "Doutor, já não falamos disso na semana passada?". "Sim, mas repita por favor. Olhe para estas figuras e tente lembrar-se de situações marcantes que viveu com ele". Maria não vê sentido nessa palhaçada, e só retorna porque a escola a obrigou, depois que ela passou a apresentar uma certa violência em sala de aula. Após uma prova oral da qual vários alunos saíram com sérios distúrbios de comportamento, Maria foi chamada à direção e ameaçada de ser demitida caso não procurasse ajuda profissional. Maria se defende dizendo que o problema está na péssima educação que os alunos recebem em casa, o que exige da parte do professor um comportamento mais rígido. Segundo ela a raiz do problema é a televisão. Estranho, já que ela própria é viciada em TV. Desenvolveu até uma habilidade paranormal: é capaz de pressentir o instante exato em que um programa retorna dos comerciais.

Maria não entende porque as pessoas a acham tão estranha, afinal, considera-se uma ótima professora. Está sempre a par de todas as novas táticas pedagógicas. Faz uso da tecnologia para tornar suas aulas mais interessantes. Tem orkut, blog, myspace, facebook, msn e multiply. Recentemente passou a exigir que seus alunos usem o Twitter, e que façam pelo menos 10 postagens por dia, inclusive nos fins de semana.

O que ninguém entende é que Maria desenvolveu técnicas elaboradíssimas de contenção da poluição sonora. E tudo tem um preço, claro. "Criançada, hoje vocês preferem brincar de estátua ou de vivo ou morto?".

quarta-feira, 18 de março de 2009

|::| Sinais do fim

Ontem foi dia de prova oral na escola do João. A professora, que passara pelo menos os últimos sete dias treinando uma cara bem feia e, segundo alguns alunos, nem precisava ter treinado tanto, convidou todos a saírem da sala. A cada dois minutos um entrava e outro saía, seguindo uma ordem um pouco heterodoxa: do maior para o menor. 

O primeiro a entrar foi o Silão. Garoto forte, destemido e temido por todos os outros. Corria o boato de que o Silão já tinha andado de metrô sozinho, e não na linha verde..., mas na linha vermelha, aquela que liga o Palmeiras ao Corinthians. Do pátio ouviu-se um grito que arrepiou a todos. "Foi o Silão gritando?!", era o comentário que começou a correr entre os alunos. Sim, foi ele mesmo. Saiu da sala correndo para o banheiro. Os alunos, que já não estavam muito tranquilos, é óbvio, já que era uma prova oral, agora estavam à beira de um ataque cardíaco fulminante. Afinal, o mais valente de todos parecia ter sido dobrado e amassado como um pedaço de papel de seda. 

A fila foi andando, sempre do maior para o menor. Ouvia-se gritos, gemidos, ranger de dentes e trovões vindos do interior da sala. Já tinha aluno comentando que sua mãe dissera que isso era sinal do fim do mundo. "E o que ela disse pra fazer nessa situação?", alguém perguntou. "Não sei, acho que ela nunca passou por isso".

Aqueles que saíam da sala, permaneciam calados, provavelmente sob alguma maldição maligna dessas que se aprende nos cursos para professores. A angústia aumentava minuto a minuto, conforme iam restando apenas os mais miúdos alunos. Imagine o desespero do João, que era constantemente alvo das chacotas de seus colegas por causa do seu tamanho. Ele sabia que seria o último a ser chamado, o alvo da ira final, a vítima derradeira. Embora se julgasse preparado, por ser muito bom em conjugação de verbos, o tema da prova, João já não sabia se sobreviveria à sala. Imaginava-se entrando e vendo a língua de cada aluno pregada à parede, enquanto a professora se dirigia a ele com os olhos saltados, segurando um punhal ensaguentado na mão direita, e um garfo na esquerda. 

"Joãoooooo!". De repente, o aluno mais miúdo tremeu ao perceber que havia chegado a sua vez. Olhou para os lados, na esperança de haver outro João na sua turma. Mas não havia. Era ele, o João. João Pequeno. João, cara de anão. 

Respirou fundo. Segurou a maçaneta. Abriu a porta. Fechou os olhos e entrou. Sentiu uma moleza súbita. "João, você tá bem?". Era sua professora perguntando enquanto o abanava com uma folha de cartolina amarela. "Você tomou café-da-manhã, João? Ou tá caindo de maduro mesmo?". Ele olhou pra professora, levantou-se rápido, e tentou endireitar sua postura, fazendo cara de valente, embora por dentro estivesse se sentindo como um cordeiro em dia de sacrifício na Jerusalém antiga.

"João, vamos à prova, tudo bem?". Não, não estava bem. Se ela demorasse um pouco mais, ele molharia as calças. "Conjugue este verbo", disse a professora enquanto apontava para uma folhinha de papel. João inspirou o máximo que pôde, e começou:

"Eu excomungo.  Tu excomungas.  Ele excomunga. Nós excomungamos. Vós excomungais. Eles excomungam".