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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

|::| Hein?!

Ouvi dizer que o ano está começando hoje.

Hoje cedo fui comprar pão. Na fila, sem nada pra fazer, obviamente, a não ser esperar e ouvir as conversas alheias, escutei o seguinte:

– O senhor possui o cartão de "cliente mais"? - perguntou com muita simpatia a caixa do supermercado ao senhor que estava à minha frente, na fila.
– Não - ele respondeu, solícito.
– O senhor gostaria de incluir o CPF na nota fiscal?
– Não, obrigado.
– Houve algo que o senhor não encontrou em nosso estabelecimento?
– Não. Ou melhor, sim! Eu não encontrei aquele doce de Abricó importado.
– Ah, vou verificar para o senhor - disse a mocinha do caixa enquanto se dirigia a um homem de terno que estava passando por perto.

Enquanto isso, meu vizinho de fila parecia começar a exteriorizar uma certa impaciência. Virou-se pra mim, com cara de que me conhecia há tempos:
– Eu nem gosto de doce de abricó!
– Pois é, né? Tá quente hoje... - foi a única coisa que eu consegui dizer.

A mocinha voltou com cara de médico dando notícia ruim à família de algum doente.
– Desculpe, senhor, mas não temos. Não é época de abricó.
– Mas não é abricó, e sim doce de abricó!
– Pois é, senhor, mas três meses atrás não era a estação de abricó lá no México, de onde a empresa que fabrica o doce importa essa fruta.
– Tá bom, tá bom. Esquece o abricó.
– Senhor, o senhor gostaria de fazer um cartão "cliente mais"?
– Não!
– É rápido, senhor. E dará ao senhor uma série de vantagens!
– Não. Será que você pode passar logo as minhas compras? É que estou um pouco atrasado, sabe?
– Crédito ou débito?
– Débito.
– Pode digitar a sua senha, senhor.

Dirigindo-se ao rapaz que o ajudava a colocar suas compras nas sacolinhas, o senhor, que já não parecia tão atrasado, disse:

– Até que enfim o ano está começando! - "Meu, como assim? Até ontem era o que!?", pensou o rapaz, enquanto o senhor prosseguia. - O ano está começando hoje! Enquanto o carnaval não passa, nós, brasileiros, vagamos fora do tempo e do espaço. Que nem o pessoal da ilha de Lost, sabe?
– O que?
– Você não tá vendo a quinta temporada?
– Não!
– Ah, desculpe... O importante é que o carnaval passou. Aquele povo suado, balançando tudo... Tudo mesmo, sabe? Balança bem mais quando não tá preso, já reparou? Mas enfim, o ano só começa no Brasil depois do carnaval, sabia?

O rapaz não sabia bem se concordava ou se fazia cara de paisagem enquanto torcia para aquele louco pegar suas sacolas de compras e ir embora logo.

– Eu não sei, não... – continuou – mas após juntar algumas peças, estou começando a achar que estaremos a salvo do fim do mundo aqui no Brasil. Não é incrível? – O senhor parecia cada vez mais empolgado com a conversa, que neste momento tava mais pra monólogo. – Pense comigo. Deus é brasileiro. Tão dizendo que o mundo vai acabar em 2012. O ano aqui só começa depois do carnaval. Percebe? Percebe? – perguntava enquanto olhava eufórico para o rapaz, que a essa altura suava frio tentando encontrar um meio de sair correndo sem dar muito na cara. – Se tivermos sorte, e teremos, já que Deus é brasileiro, o mundo vai acabar antes do carnaval de 2012! Enquanto estaremos num limbo atemporal entre o fim de 2011 e o carnaval de 2012, o mundo vai estar acabando. Pense só! Vai ser só festa! Quarta-feira de cinzas com cinzas do mundo acabado. Imagine! Nada de dívida externa e de argentinos. Nem filmes franceses e nem bandinhas inglesas esquisitas. Seria o céu, não acha? – perguntou o senhor, sorrindo e de olhos fechados, sem saber que o rapaz havia escapado.

Peguei minhas sacolinhas e também dei um jeito de ir embora antes que ele abrisse os olhos e inventasse de procurar um novo ouvinte. Afinal, fiquei curioso pra conferir a quinta temporada de Lost...


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

|::| Googlando

- Mãe, como eu nasci?
- Procura no Google!
- Procurei, mas o que é uma vagina, mãe?
- Procura no Google! Eu já disse!
- Mas mãeee, como vou ter filhos se não tenho uma vagina?!
- Marcos Henrique!!! Quantas vezes vou dizer pra procurar no Google? 
- Mas, mã....
- E além disso, cansei de dizer que você é menino. Escutou? ME-NI-NO! Procura aí no Google pra ver o que isso significa!
- Paiê! Ô paiê! Como eu nasci?!
- Amor, explica aí pro garoto!
- Eu não, já disse pra ele procurar no Google! Não era pra isso o computador novo?
- Mas... mor, você não acha meio arriscado esse negócio de internet?
- Quem disse isso? Você leu no Google?
- Não, amor. Mas....
- Se não foi no Google, foi onde, então?
- Ah, acho que vi na...
- TV? Ah, vai ver se eu tô lá no Google, vai? E me deixa em paz que eu achei os capítulos da novela no youtube.

Há anos Marcos debatia-se com a sensação de que havia algo de errado com ele. Sentia um vazio estranho que não cabia no campo de buscas do Google. Pra desespero de sua mãe, que depois de descobrir a Wikipedia tornou-se a rainha da sabedoria, Marcos ia minguando, desaparecendo. Diante da clareza arrebatadora do Google, ele era apenas um nada, um dvd virgem, um hard disk danificado. 

"Você precisa passar mais tempo com ele, Marquinhos", dizia sua mãe, referindo-se ao Google, claro. Tentativa após tentativa, sentado diante do computador, com as mãos trêmulas sobre o teclado, Marcos angustiava-se por não encontrar as palavras corretas capazes de expressar aquele buraco em sua mente. "Como vou procurar por algo que nem sei nomear?" Dia após dia, sua tristeza aumentava assim como aumenta a capacidade de armazenamento de um gmail. 

Criou uma comunidade no Orkut: "Eu já me procurei no Google". Era o único membro. Solitário. E os outros? Havia outros? Por anos Marcos acreditou estar sozinho. Voltava do colégio e fechava-se no quarto. Lia muito, pensava muito, buscava muito, teclava muito e descobria pouco sobre si. Desenvolvera uma estranha obsessão: toda noite, logo antes de dormir, ele silenciosamente ligava seu notebook e digitava "Marcos" no campo de buscas do Google. Fazia isso com intensa expectativa. Achava milhares de links que pesquisava de forma apreensiva, sempre imaginando o que faria quando topasse com ele mesmo. Mas não estava no Google. Não ele. Outros Marcos, sim, mas não ele. 

Enquanto seus colegas de classe pareciam estar florecendo, multicoloridos, preenchidos por aquela empolgação de quem está começando a se desconfiar invencível como todo bom adolescente, Marcos olhava-se no espelho e parecia enxergar uma folha murcha, seca, retorcida. Até já sentia-se velho e doente. Hipocondríaco, sempre após o almoço, ia com sua mãe até o computador, sentava-se ao lado dela, respirando com dificuldade, enquanto ela lia, na wikipedia, as descrições das doenças que o acometiam naquele dia. "Olha aqui, eu não disse que a gente ia encontrar um tratamento?" dizia sua mãe, esboçando um tímido sorriso que escondia sua imensa sensação de poder toda vez que encontrava algo na wikipedia. 

Certamente o que torna a história dos primeiros 18 anos da vida de Marcos tão interessante não é a felicidade. Após uma bela festa surpresa, ele trancou-se em seu quarto, ligou seu notebook, tirou de debaixo do colchão aquela faca mais afiada que roubara da cozinha dias antes, e cortou seu pulso direito. Observou atentamente aquele líquido de cor extraordinária às vezes escorrendo calmamente, às vezes fugindo de seu pulso em rápidos esguichos nervosos. Após alguns instantes em que sentiu como se o tempo houvesse parado enquanto viajava para mais longe de tudo o que conhecia, Marcos voltou sua atenção para o pulso esquerdo. Pensou rápido, e soltou um sorriso triste enquanto aquela lâmina um pouco ensanguentada perfurava sua pele. 

Com as duas mãos sobre o teclado, Marcos esperava encontrar as últimas palavras que digitaria, na expectativa de conseguir, afinal, encontrar suas respostas. Com os olhos fixos no espaço em branco do campo de buscas do Google, Marcos sentia-se também cada vez mais um espaço vazio à medida que seu sangue gotejava sobre o notebook. Sentiu uma leve fraqueza. Tudo escureceu por um segundo e quando tornou a abrir os olhos, Marcos teve o insight de sua vida! Rapidamente digitou "o que fazer para não morrer após cortar os pulsos". Calmamente procedeu de acordo com as orientações encontradas no Google. Embora sentindo-se bastante fraco, o sangramento parou e Marcos sentiu que sobreviveria. 

Antes de seus pais desconfiarem que algo estava errado e arrombarem a porta do quarto, Marcos ainda teve tempo de entrar no Orkut e ingressar na comunidade "Eu odeio cortar os pulsos". 

Sobre o insight:  Marcos percebeu que ele e o Google eram iguais, dotados de uma infinita profundidade escondida atrás de um espaço vazio.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

|::| Adeus, Tíxia!

Sempre desconfiei que meu apartamento era pequeno demais para ela. O carpete preto e velho, as paredes clamando por uma nova pintura, os livros empoeirados e a geladeira que não é nenhuma Brastemp. Eu nunca me preparei para recebê-la. Foi tudo muito rápido. Quando me dei conta, ela já estava me olhando com aquele ar distante, indiferente, parada perto da porta, à beira de seguir com sua busca incessante por respostas. 

Tentei seguí-la. A cada metro, Tíxia olhava para trás, talvez sem saber se devia prosseguir em sua jornada, ou talvez apenas para gravar minha imagem em sua mente enquanto eu a observava de longe. 


Ainda tive tempo de fotografá-la. Meus amigos já estavam a me chamar de louco, lunático. Ouvi muitos comentários, alguns até maldosos. "O que? Uma lagartixa chamada Tíxia? Você tá louco?"... "Você tá é precisando de uma namorada de verdade! Vai esquecer rapidinho dessa Tíxia"... "Você lá tem idade pra ter amigos imaginários? E ainda com esse nome estranho?!" Mas, é claro que todos estavam errados. Minha clareza mental prossegue incorruptível. E aí está a prova da existência da Tíxia. Teve gente até achando que a Tíxia era fruto de algum tipo de dupla personalidade que me acometeu após alguma das minhas batidas de cabeça frequentes enquanto lavo a louça, ou ainda a manifestação do meu alter ego. Para todos esses que duvidaram de mim, riram e me humilharam em praça pública, fiz questão de eternizar em jpeg a presença da Tíxia.

Tíxia Catarina, uma lagartixa de excelência. Nunca vou esquecer dos dias em que ela me iluminou com sua presença imperceptivelmente prazerosa. Ela sempre deixou bem claro sua aversão à rotina. Certamente a monogamia nunca foi seu valor dominante. Mesmo tendo vencido sua dificuldade para estabelecer relacionamentos duradouros, Tíxia é uma Largatixa do mundo, cosmopolita, à frente do seu tempo. Enquanto suas colegas comiam mosquitinhos, a Tíxia já estava a devorar pernilongos. As outras escalavam portões enquanto Tíxia já subia alto nos arranha-céus de São Paulo. 

Tíxia, uma lagartixa malandra. Nem bem me virei e ela já estava lá, esparramada, à beira da porta do vizinho. Acreditam? Sim! Do vizinho! Se não acreditam, vejam a foto!


Tíxia deixa, portanto, meu apartamento para viver novas aventuras. Deixa também muitos fãs desconsoláveis. Mal tornou-se a estrela deste blog, e ela já estava pensando em vôos mais altos. Quem sabe ela não aparece no blog do vizinho?! Ou ainda no blog da esquina, aquele da fofoca e fifim do mundo? 

Esperemos. Em último caso, vê-la-emos no juízo final que, afinal, tá perto, não é?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

|::| Tíxia, a lagartixa

Decidi escrever um livro. Alguma sugestão?
_____

Após ter meu apartamento invadido por uma simpática lagartixa, que a partir de agora atende pelo nome de Tíxia Catarina, enxerguei o real sentido do mundo e decidi escrever um livro.

É claro que vou começar falando da Tíxia. Ela é um pouco malandra, entende? Cresceu por aí. Sem eira nem beira. Órfã, aos vinte e três dias de idade já havia sido expulsa a vassouradas pela dona da loja da esquina. Nunca entendeu porque mesmo dando facilmente um pedaço de si, o rabo, era incapaz de estabelecer relacionamentos sólidos e duradouros. Será que deveria doar-se menos?

Mas que culpa ela tem? Foi criada assim. Sua natureza é essa. Bastou um toque, de leve, e o rabo fica pra trás. As baratas da equipe de revesamento 4x10 m disseram que o problema é que as pessoas sentem-se embaraçadas quando topam com um rabo sem dono. 

Durante semanas, Tíxia deixou de acreditar em qualquer existência superior. "Por que nasci uma lagartixa de rabo solto?" O que ela não suspeitava era que todas as lagartixas nascem assim.

Tíxia só iniciou o tortuoso processo rumo à auto-consciência quando ouviu dois pernilongos cantores planejando a dominação do mundo. Naquele instante, seu coração encheu-se de força, sua vida tornou-se cheia de propósito, e Tíxia começou a entender o seu papel no universo! 

Após evitar a concretização dos planos maquiavélicos da dupla sertaneja de sugadores de sangue, Tíxia, lembrando-se de algo que havia escutado andando pela rua, decidiu sair em busca de um tal oráculo, conhecido pelo estranho nome de "Google". Foi aí que Tíxia entrou em meu apartamento, onde tranquilamente, já que não sou adepto da matança gratuita dos pequenos seres, encontrou suas respostas. Descobriu que seu problema de "rabo solto" nada mais é do que uma característica de sua espécie. 

No fim das contas, Tíxia é uma lagartixa, demasiada lagartixa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

|::| Bom, bonito e barato

Ele era um cara valente. Bom de briga, sabe? Do tipo "vai encarar?" Aos três anos já havia destruído um exército de comandos em ação. Sua irmã, coitada, apenas dois anos mais velha, enterrara sua Barbie no cemitério da família, prevendo um fim violento para sua mais querida posse, após testemunhar o transplante de rins, sem anestesia, que ele insistia ser essencial para que Susi continuasse a viver. 
Dois anos depois, durante uma fase mais zen, ele juntou todos os seus cavaleiros do zodíaco para uma meditação coletiva, em busca de desenvolver o décimo sentido, que lhe permitiria enxergar através das paredes. Frustrou-se porque só conseguiu chegar à metade do quinto, que consiste na interessante habilidade de ver pelo buraco da fechadura. Triste, sim, porém nunca desanimado, após alguns anos perseguindo seu objetivo, ele ainda foi capaz de aprender a incrível habilidade de decifrar as legendas das fotos da Revista Caras. 

Sim, ele era bom. Ele era ele. Ele era mais que ele. Ele estourava bexigas com as grafites de sua lapiseira prateada. Ele pintava quadros surrealistas usando apenas uma mão. Descia o escorregador com os braços para cima e olhos fechados. Ele tinha espírito aventureiro. Radical. Vivia perigosamente. Tocava a campainha dos vizinhos e ainda contava até cinco antes de correr. No esconde-esconde, só brincava de óculos escuros e fones de ouvido. No pega-pega, só abria o olho esquerdo.

O que ele não imaginava é que aos treze anos enfrentaria o pior de todos os pesadelos juvenis: a sétima série. Nunca mais seria o mesmo. Pra piorar, sua irmã, agora com quinze anos, menstruava, beijava garotos na frente dele e dançava lambada com a vassoura. Sua valentia minguava, pouco a pouco. Mesmo com doses cavalares de sustagem e biotônico, ele se via diminuindo, secando, degringolando.

Em fevereiro de 2012, quando viu no plantão da globo que o mundo já estava acabando, ele não sabia se sorria ou se chorava, se corria ou se deitava. Só um pensamento pulsava em sua cabeça: o mundo vai acabar de trás pra frente, ou de frente pra trás?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

|::| Seis e meia na praça

            O sol ainda está no céu. Vai descendo aos poucos. A luz passa pelas nuvens e atravessa os espaços vazios do mundo. As janelas abertas. As sombras das árvores. Umas poucas pessoas que andam pela rua. Uns poucos pássaros que voam. Os sentimentos se confundindo. É nesse momento, em que a noite chega devagar, que sentimos o dia. Mais um. Pra muitos, algumas horas. Para alguns, uns últimos instantes. Ainda pra outros, os momentos. Pra mim, chegou a hora de parar. Pensar que fiz o que queria é um verdadeiro engano.

            O sol, cada vez mais escondido. Fugindo.

            A praça já está vazia. Só eu. Sentado num banco. Perto de uma árvore. Observando. Vendo o mundo passar. É o momento em que penso como seria estar sozinho no mundo. Talvez esteja. Pensar que olhando dentro dos olhos da pessoa mais próxima de mim pode ser revelação de que estou infinitamente distante dela. E isso é belo e aterrorizador. É até uma sensação de que estou num abismo, ou que os olhos do companheiro ao lado são o abismo e que podem devorar o que penso ser eu. Buraco sem fundo. Buraco absurdamente sem fundo.

            Mas a praça, esta praça às seis e meia da tarde, parece ir se desintegrando aos poucos. Perde partes de si. Já não correm as pequenas criaturas. Já não correm as criaturas pequenas, os seres, os humanos. Só eu. Só o cara da praça às seis e meia da tarde. Sentado num banco. Observando e tentando entender como as sombras podem dar lugar à escuridão conforme o sol se despede. Despede-se de quem? De um monte de matéria talvez. Matéria ou espíritos? É algo pra se pensar enquanto olhamos pela janela do ônibus que nos leva à nossa casa.

            O banco. Este banco sobre o qual estou. Estou sentado. Com as pernas cruzadas, balançando o pé direito e vendo o tempo passar. E eu sei que ele passa, pois o dia vai escurecendo aos poucos, agonizando. O céu está vermelho: símbolo de seu sofrimento. O banco está quase vazio. Talvez se alguém passasse neste instante por aqui eu o convidaria para sentar-se ao meu lado.

            Mas o banco. O banco já está quase vazio. Quem sabe se passados dois minutos ainda estarei aqui? Se nem eu – eu que penso sentado no banco às seis e trinta e um da tarde numa praça no meio de uma cidadezinha com um céu sofrendo e um sol se despedindo em agonia – sei se estarei aqui durante os próximos dois minutos.

            O chão. Esse chão que serve de túmulo para tantas folhas que caem das árvores. Esse chão é pra onde olho quando caminho pensando no que deixo pra trás cada vez que permito que uma perna se dirija ao futuro. Se bem que esse negócio do tempo é tão esquisito... Há um minuto eu estava a pensar sobre os vazios por onde os últimos raios solares passavam. Agora também penso nisso. Mas nem por isso agora é seis e meia da tarde. Quase nada mudou neste último minuto, a não ser a minha cabeça. Os meus pensamentos. Não mudaram, cresceram. Há um minuto eu ainda não havia chegado à conclusão de que as pessoas estão separadas por distâncias absurdas, por pensamentos inúmeros e desejos irrealizáveis. E se penso isso agora, devo ao último minuto em que decidi permanecer sentado num banco de praça vendo o tempo passar, observando, refletindo sobre o céu, o sol, a praça, o banco, o chão, e também sobre mim, sobre o mundo, sobre a matéria e talvez, se me foi permitido, sobre o espírito.

            Eu sentado num banco de praça vendo o tempo passando, as folhas caindo, o céu sofrendo, o sol agonizando, sentindo o tempo passando com os pensamentos crescendo. Eu sentado num banco de praça às seis e trinta e um e quase dois. Eu que resolvi parar. Eu que decidi que essa era hora de parar, sentar-me num banco e ver que posso não saber sobre dois minutos de minha vida.

            E quando os ponteiros resolvem tomar mais um minuto meu, mesmo com a possibilidade de descobrir mais sobre o abismo que há entre as pessoas, levanto-me. Caminho em direção ao ponto de ônibus.

            Seis e trinta e dois, esperando um ônibus passar e me levar. Levar pra casa enquanto penso se o sol sabe sobre sua própria agonia despedindo-se das coisas.

 

(Talvez meu relógio esteja parado. E se me iludi pensando que se passaram dois minutos quando na verdade podem ter-se passado cinco minutos? Espero que o ônibus não demore).


Escrito em 30/09/2001

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

|::| Algo que não fiz

[Como os mais próximos sabem, eu não vivo só de reflexões obscuras e complicadas... De vez em quando também escrevo sobre aqueles aspectos mais comuns da nossa vida. Ué. Paixões frustradas, dores de cotovelo, amores bem-sucedidos, sapatos novos, restaurantes legais, bons filmes e livros,  enfim... por incrível que pareça, não vivo de pensar sobre o sentido último das coisas. Eu também como, bebo, beijo, e assim por diante. Não preciso dar os detalhes, não é? Pra provar que sou normal, hehe, eventualmente vou postar alguns dos meus contos e crônicas... escritos nesses últimos 10 anos. Alguns talvez até sejam divertidos.... Enjoy!]

[Pra começar... um texto de 2001... sobre aqueles momentos de passividade que nos angustiam]

_____

E difícil é quando me pergunto qual o objetivo de minhas indagações... Pois já nem sei se aquilo que penso é realmente o que penso. E já nem sei até onde vai o meu pensamento e o pensamento alheio. E não consigo distinguir a minha pessoa do resto da multidão. Se eu ou eles. As frases nas quais penso são de outros; as que tento inventar, não invento, pois já foram inventadas... Os livros estão todos escritos. Os contos já escaparam e vagueiam entre os mundinhos de cada um. Os romances... esgotaram-se. E sinto que tudo já foi feito. Tudo já foi vivido. Mas eu não fiz nada! Outros fizeram! E contaram. Espalharam. E tudo pode ser lido. E pode ser dito. E vivido...?

            Pois então contarei o que não vivi.

            Eu não conheci a pessoa que eu quis. Somente a olhei, de longe. Algumas vezes olhei de perto. Mas não sei se ela me viu. Não perguntei. E nem quis faze-lo. Pois o que eu não faria se descobrisse que ela não é a pessoa que eu quis? E se eu percebesse que ela não podia mais ser um sonho?

            Sonho é o que era. Pois não a conhecia. Só a via num momento do dia. Todos os dias. Mas aqui dentro eu a via, sentia. O gosto, o cheiro, o som, a consistência. Mas não a conhecia. Pois não sabia se podia.

            Certa vez enquanto almoçava ela passou ao lado da mesa à qual eu estava sentado. Obviamente eu não olhei pra ela. Nem sorri. E também não descobri se ela desviou o olhar para a minha direção. Nunca vou saber, pois não vou perguntar... E a partir daquele momento eu não podia mais conter a ansiedade de vê-la passar ao meu lado. Perguntava-me: será que ela já não percebeu que eu a quero?

            Procurava andar pelos mesmos lugares. Seguia seus passos. Mas não quando ela estava por perto. Seguia o trajeto que eu imaginava que ela teria feito. Toda vez que tinha a oportunidade eu inspirava profundamente tentando sentir o seu cheiro. Mas não sentia. Eu não me aproximava o suficiente. Mas lá dentro eu sabia como era. Era... não sei!

            Não vou descrevê-la. Isso os românticos já fizeram. Está tudo lá nos livros. É só ler. Todos já sabem como ela é. Sabem até de suas emoções, e sentimentos. Mas eu só imagino como são, pois não tentei descobrir. Nunca perguntei.

            E o tempo foi indo. A vida foi indo. Eu não. Eu permaneci. Não a conheci. Não falava com ela. Não passeava com ela. Não a beijava, nem a sentia. Mas sabia a cor dos seus olhos. Não eram castanhos. Não eram negros, nem verdes. Seu cabelo não era ruivo, nem loiro. As roupas que vestia não eram feias, nem velhas, nem sujas.

            Bem, já percebi que isso tudo que eu não fiz não interessa a ninguém. Pois todos já sabem... Já viveram. Leram. Sonharam. Só eu que não. Pois me recusei a isso. O que adianta viver aquilo que não se vive? Não quis me enganar. Isso eu não fiz.

            A conclusão do romance que não vivi é a seguinte: não conheci, não toquei, não senti, nem vivi. Não me decepcionei, não chorei, só sonhei. E hoje não tenho que me fazer a pergunta: “Foi tudo real?” A resposta eu já sei; é "não". Não foi real, pois não foi. Não foi nada. Foi talvez uma brisa. Ou talvez um abrir e fechar de olhos. Ou ainda o arrepio frio de uma tarde ventosa de outono. Mas de uma coisa eu sei: Não foi um romance!

 

Kelson Fernandes

Escrito em 23/08/2001